A regulamentação da profissão de queijista está em debate na Câmara dos Deputados, enquanto representantes do setor defendem critérios mínimos de formação e reconhecimento formal para a atividade. O projeto de lei 437/2025 foi apresentado em fevereiro do ano passado pelo deputado Zé Silva (Solidariedade-MG) e ainda aguarda a designação de um relator.
A proposta define o queijista como o profissional especializado na venda de queijos e na orientação aos consumidores. O trabalho pode ser realizado em lojas, queijarias, empórios, armazéns, mercearias e outros estabelecimentos.
A discussão envolve uma ocupação que já é exercida no país e exige conhecimentos sobre produção, maturação, conservação, análise sensorial, harmonização e comercialização. Também cabe ao profissional explicar a origem, a história e as características dos produtos, aproximando produtores e consumidores.
Da formação à responsabilidade sanitária
Danilo Cavalcantti Gomes, host do podcast Papo de Queijo, afirma que o queijista precisa compreender tanto as características do produto quanto o perfil do consumidor. Na avaliação dele, esse profissional funciona como um elo entre a produção e o consumo, especialmente para pequenas empresas e famílias produtoras que nem sempre conseguem comunicar a origem e os atributos dos queijos.
A atividade também pode envolver a identificação de notas de sabor, mudanças na textura, formação de bolores na casca e alterações nas olhaduras durante a maturação. Esse conhecimento permite recomendar produtos e ampliar o público interessado em queijos de maior complexidade sensorial.
Gomes defende que a regulamentação estabeleça uma formação consistente. Para ele, cursos rápidos não seriam suficientes para preparar alguém para as responsabilidades técnicas e sanitárias da função. O profissional deve indicar produtos registrados e inspecionados, sem fraude, e representar corretamente a origem de cada queijo.
Falco Bonfadini, proprietário da Galeria do Queijo, cofundador da associação Comerqueijo e um dos responsáveis pela criação do termo, resume a relação com outras ocupações: “O queijista está para o queijo assim como o sommelier está para o vinho e o barista, para o café”.
Como surgiu o nome
A denominação começou a ser discutida em 2017 por Bonfadini e outros profissionais do setor. O grupo avaliou palavras usadas em outros países, como fromager, na França, e cheesemonger, nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas preferiu criar uma expressão associada à identidade brasileira.
O termo surgiu durante uma conversa de Bonfadini com um motorista de aplicativo, depois que ele explicou que trabalhava com queijo. A palavra passou a identificar a atividade e foi incorporada pela associação fundada por ele e outros profissionais, que deixou de se chamar Comerqueijo e adotou o nome Associação dos Queijistas do Brasil.
Curso e efeitos no varejo
Bonfadini afirma que sua trajetória começou há 30 anos, quando não havia ensino especializado para a função. Mais recentemente, ele participou da criação do primeiro curso de formação de queijistas em Belo Horizonte, com módulos sobre legislação, boas práticas, harmonização com vinhos e cervejas, administração, marketing e redes sociais.
Para os representantes do setor, o reconhecimento formal também pode valorizar a profissão, inclusive na remuneração. Bonfadini aponta que supermercados ainda deslocam funcionários de outras áreas para a seção de queijos sem treinamento específico.
A expectativa é que atendentes capacitados consigam diferenciar produtos, fazer recomendações e apresentar novas formas de consumo. A avaliação é que isso pode beneficiar os estabelecimentos, os consumidores e os demais participantes da cadeia de produção.



