A expansão de regras ambientais no comércio internacional criou uma nova frente de disputa para o agronegócio brasileiro. Além de tarifas, cotas, subsídios e preferências comerciais, países exportadores precisam atender a exigências de sustentabilidade, comprovar a origem da produção e demonstrar conformidade com padrões definidos por compradores e reguladores.
A Europa está no centro desse movimento, com o CBAM, mecanismo de ajuste de carbono na fronteira, e o EUDR, regulamentação antidesmatamento. O CBAM prevê a cobrança, na importação, do carbono incorporado em produtos como aço e hidrogênio. Embora o impacto sobre o agro brasileiro ainda seja indireto, fertilizantes, energia, logística e insumos industriais fazem parte das cadeias agrícolas. A possibilidade de ampliação do mecanismo também exige acompanhamento antecipado.
O EUDR tem efeito mais direto sobre cadeias como café, madeira, soja, carne, cacau, borracha, óleo de palma e derivados. Para atender à norma, não basta produzir em área regular. Será necessário documentar, rastrear, auditar e comprovar a origem, a geolocalização, a ausência de desmatamento e a realização de diligência devida.
Custos e coordenação
As exigências podem elevar os custos de conformidade, especialmente em cadeias longas, fragmentadas ou formadas por fornecedores indiretos. Mesmo quando o produtor cumpre a legislação brasileira e adota boas práticas ambientais, a falta de documentação nos termos exigidos pelo mercado europeu pode ameaçar o acesso às compras.
A avaliação é que a competitividade brasileira é afetada por descoordenação, assimetria de dados, conflitos burocráticos e dificuldades de comunicação. O país tem ativos ambientais, como matriz energética limpa, agricultura tropical, tecnologia de plantio e biocombustíveis, mas precisa organizar melhor a atuação do governo e do setor privado.
A presença nos centros de decisão também é apontada como necessária. Bruxelas tem peso para o agronegócio brasileiro, enquanto Pequim se destaca pela escala de seu mercado e Washington pela influência regulatória, financeira e geopolítica. Além das embaixadas, a estratégia exigiria inteligência técnica, presença setorial e monitoramento de propostas que possam afetar as exportações.
O combustível sustentável de aviação, conhecido como SAF, é citado como exemplo de oportunidade e risco. O produto pode ampliar a demanda por biomassa, etanol, óleos vegetais e novas rotas tecnológicas. Ao mesmo tempo, debates na Organização da Aviação Civil Internacional sobre critérios de sustentabilidade e elegibilidade de créditos podem influenciar a produção brasileira e a percepção internacional sobre os biocombustíveis do país.
A partir de 2027, a expectativa é que o Brasil reduza a postura de apenas seguir padrões formulados por outros países e passe a participar de sua elaboração. Para isso, será necessário atuar em organismos e fóruns como OMC, Codex Alimentarius, OMSA, CIPV, OACI, COP, OCDE, G20 e Convenção sobre Diversidade Biológica.
A estratégia defendida envolve disputar as narrativas ambientais com base em ciência, viabilidade, proporcionalidade e regras não discriminatórias. Também inclui buscar transições adequadas, reconhecimento de sistemas nacionais confiáveis e equivalência regulatória quando possível. Sem maior coordenação, o país pode enfrentar custos mais altos e perda de mercados; com organização, a sustentabilidade pode ser convertida em vantagem competitiva.



