Publicações pagas em redes sociais, uma entrevista exclusiva e conexões com empresas de mídia e tecnologia eleitoral colocaram Flávio Bolsonaro no centro de uma rede internacional ligada à direita política. Os documentos e registros analisados não demonstram, porém, que essa estrutura tenha atuado como uma operação única para beneficiar o senador.
O perfil Visegrád24, mantido por uma fundação americana e seguido por mais de 1 milhão de pessoas no X, publicou em 30 de abril e 20 de setembro mensagens sobre as chances de Flávio na Polymarket. As duas publicações tinham o selo de parceria paga. Em setembro, o perfil afirmou que a possibilidade de vitória do senador estava aumentando e o apresentou ao lado de Javier Milei.
Antes dos anúncios, o Visegrád24 entrevistou Flávio em fevereiro. Em 27 de janeiro, também publicou trechos de um discurso do senador em Jerusalém. O conteúdo da entrevista abordou o Supremo, a política externa, os Estados Unidos e o crime organizado.
A plataforma de apostas
A Polymarket é uma plataforma de mercados de previsão. Seus percentuais representam o preço dos contratos negociados, e não uma pesquisa sobre a intenção de voto dos brasileiros. Em determinado momento, o mercado indicou 58% para Flávio.
O acesso à plataforma foi bloqueado no Brasil em abril, porque a empresa não tinha autorização para operar no país. Desde junho de 2025, a Polymarket é parceira oficial de mercados de previsão do X. Em agosto de 2025, recebeu investimento do fundo 1789 Capital, que tem Donald Trump Jr. como sócio. Ele também entrou para o conselho consultivo da empresa.
Empresas e conexões
Javier Negre aparece como um dos principais elos entre as estruturas. Empresário espanhol, ele é vice-presidente da UHN Plus Media Network, que publicou posts pagos relacionados a Flávio e se apresenta no X como impulsionada pela Polymarket. A empresa informou que Negre se tornou coproprietário após um investimento estratégico.
Negre também esteve ligado ao Visegrád24 Español e entrevistou Flávio em março, durante a CPAC realizada no Texas. Em fevereiro, participou da organização de uma gala no clube de Donald Trump, na Flórida. No evento, Eduardo Bolsonaro apresentou Fernando Cerimedo, que recebeu o prêmio de consultor político do ano.
Cerimedo é um marqueteiro argentino que questionou, sem apresentar provas, o resultado da eleição brasileira de 2022. Ele coordenou a comunicação da campanha de Javier Milei e anunciou que representaria na América Latina as tecnologias da Campaign Nucleus, criada por Brad Parscale, ex-chefe da campanha de Donald Trump.
Em 18 de agosto, Cerimedo foi detido na Bolívia e teve a prisão preventiva decretada. O Ministério Público boliviano o acusa de ser mandante de uma tentativa de feminicídio contra a ex-companheira, Nadia Beller. A defesa nega as acusações.
O que está comprovado
Há registros de parceria entre veículos ligados a Negre e o Visegrád24, posts pagos sobre Flávio e relações públicas entre Cerimedo e estruturas de tecnologia eleitoral. Também há documentos que associam a Campaign Nucleus, a EyesOver e a Clock Tower X a um mesmo endereço em Medina, Ohio.
Ainda não foi localizado contrato entre essa rede e a candidatura de Flávio. Também não foi identificado quem financiou especificamente os anúncios, quem escolheu o senador como tema ou se houve intermediários entre as plataformas estrangeiras e a campanha.
A legislação eleitoral brasileira permite propaganda paga na internet apenas nas hipóteses previstas em lei. As regras vigentes em 2026 proíbem oferecer vantagem econômica para que pessoas ou empresas publiquem conteúdo político-eleitoral em seus próprios canais. O X informou ao TSE que manteria proibidos no Brasil os anúncios políticos e de campanha.
A campanha de Flávio disse não ter conhecimento dos anúncios e negou relação formal com Cerimedo. O marqueteiro também negou vínculo com a candidatura e afirmou que a relação do La Derecha com os demais atores é responsabilidade exclusiva de Javier Negre.



