Aos 68 anos e estreante em eleições, Augusto Cury aparece em terceiro lugar nas pesquisas para a Presidência, atrás de Lula e Flávio Bolsonaro. O candidato do Avante marcou 8% no Datafolha divulgado na quinta-feira (3), seis pontos a mais do que em agosto. Na pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira (2), registrou 10%, ante 2% na rodada anterior, de 14 de agosto.
O crescimento eleitoral veio acompanhado de aumento de seguidores e da evolução de sua popularidade digital. O Índice de Popularidade Digital calculado pela Quaest, em escala de 0 a 100, subiu de 37,8 para 54,5 pontos. Campanhas adversárias levantaram suspeitas sobre o crescimento repentino, mas Cury nega irregularidades e atribui o interesse à chamada “revolução silenciosa”. Até o momento, não há processos relacionados ao tema no Tribunal Superior Eleitoral.
A legislação eleitoral permite o pagamento para ampliar o alcance de publicações de candidatos, desde que sejam respeitadas as regras. Já a contratação de influenciadores e o uso de perfis falsos ou automatizados para inflar o engajamento são proibidos.
Uma candidatura com raízes em 2009
O projeto presidencial atual retoma uma aproximação com a política iniciada em 2009, quando Cury se filiou ao Partido Verde. Naquele período, o partido cogitou lançá-lo à Presidência, mas Marina Silva acabou escolhida como candidata depois de receber um convite de Sarney Filho.
José Luiz Penna, presidente do PV desde 1999, afirmou que o escritor demonstrou interesse na candidatura, mas preferia disputar apenas a Presidência. Cury também foi convidado a colaborar na elaboração do programa de governo de Marina, especialmente na área da educação. Ele rejeitou a definição de “guru” da ex-ministra e disse que era apenas um amigo que torcia por ela.
Entre as ideias apresentadas naquela época estavam a transformação de todo o ensino médio em formação profissionalizante, a oferta de ensino universitário a distância em municípios com mais de 10 mil habitantes e a reorganização das carteiras escolares em formato de “U”. Parte dessas propostas reaparece, com outra formulação, no programa de governo de 2026, que defende maior integração entre o ensino médio e a formação técnica.
Em 2026, Cury se apresenta como alternativa aos políticos tradicionais. A candidatura foi abrigada pelo Avante, que lhe oferece acesso ao fundo eleitoral e ao horário eleitoral. O vice escolhido é Júlio Delgado, ex-deputado federal mineiro que já disputou a presidência da Câmara e também foi filiado ao PV.
Antes de definir sua candidatura, Cury conversou com Michel Temer, Gilberto Kassab e Aécio Neves. Walter Feldman, que coordenou a campanha de Marina Silva à Presidência em 2014, descreveu o escritor como moderado e preocupado com questões sociais.
Livros, empresas e patrimônio
Cury ficou conhecido por livros como “O vendedor de sonhos”, romance lançado em 2008 e adaptado para o cinema oito anos depois. Formado em Medicina, ele atuou como psiquiatra e psicoterapeuta e também se tornou empresário. À Justiça Eleitoral, declarou patrimônio de R$ 242 milhões, distribuído entre imóveis, participações empresariais, ações, fundos de investimento, créditos e saldos bancários.
A carreira de escritor começou oficialmente em 1998, com a publicação de “Inteligência Multifocal”. Em 2011, ele já havia lançado 28 obras. Levantamento de 2016 indicou a venda de 28 milhões de exemplares ao longo da carreira. O site oficial do escritor informa que seus livros são publicados em mais de 70 países e que as vendas ultrapassaram 42 milhões de exemplares.
Há empresas ligadas a Cury ou a familiares nas áreas de educação, treinamento profissional, gestão emocional, publicação, produção de conteúdo, agricultura, exploração florestal, imóveis, construção e participações societárias. Entre 31 CNPJs identificados, 23 apareciam como ativos: 17 em São Paulo, cinco em Minas Gerais e um no Piauí.
Em Minas Gerais, empresas ligadas ao grupo estavam registradas em Prata, Riachinho e Bonfinópolis de Minas. O Instituto Estadual de Florestas indeferiu, em 2025, um pedido da Filadélfia Nature para cortar 233 árvores nativas na Fazenda Serra Branca. No ano anterior, o órgão havia negado outro pedido, para suprimir 994 hectares de Cerrado.
Contratações públicas e telemedicina
Foram localizados quatro registros de contratações públicas relacionados às empresas de Cury. O mais recente envolveu o Conselho Federal de Contabilidade, que contratou o Instituto Academia de Inteligência por R$ 110.436,23, em março, para intermediar uma palestra on-line. Em 2023, a Prefeitura de Ourinhos contratou outra palestra por R$ 63.931,81.
Os dois registros mais antigos são de 2011 e 2010. A Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro pagou R$ 19.700 por uma palestra, enquanto a Prefeitura de Candeias contratou Cury por R$ 28.844,28. Os quatro valores somam R$ 222.912,32, sem correção pela inflação. Os documentos consultados não apontam irregularidades.
Na campanha, Cury defende ampliar a telemedicina no sistema público para desafogar o SUS. A proposta foi questionada porque ele foi sócio e embaixador da Click Life até 2023. O candidato afirma que não mantém mais relação com a empresa e que a experiência no setor mostrou a possibilidade de usar a tecnologia com baixo custo.
Em 2025, a Click Life foi desclassificada de uma licitação do Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual por não apresentar uma certificação exigida. A empresa contestou a decisão na Justiça. A liminar foi negada, e o Tribunal de Justiça de São Paulo rejeitou por unanimidade o recurso em fevereiro de 2026. O mandado de segurança principal ainda tramita.
Questionado sobre o fato de ainda aparecer como embaixador no site da companhia, Cury afirmou: “Não sou mais embaixador, eu sou alguém que tem experiência porque sou empresário.”
Caso seja eleito, o candidato diz que pretende acabar com a possibilidade de reeleição. Para ele, o cargo público pertence ao contribuinte, e não a uma pessoa ou família.



