A mudança no fluxo estrangeiro para a Bolsa acompanha o acirramento da corrida presidencial entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Dados da B3 mostram saldo positivo de R$ 9,6 bilhões entre compras e vendas de ações em setembro até o dia 22, depois de uma saída de R$ 18,1 bilhões em agosto. No ano, o resultado acumulado é positivo em R$ 32,6 bilhões.
O desempenho dos ativos também mudou. Em agosto, a Bolsa caiu 0,32% e o dólar subiu 2,21%. Em setembro, o Ibovespa avançou 6,4%, enquanto a moeda americana recuou 0,25%. A alta do petróleo e o fluxo para empresas brasileiras de commodities aparecem junto com o movimento de valorização dos ativos domésticos.
Proteção e diversificação
A maior proximidade entre os candidatos nas pesquisas tem levado investidores a considerar ativos menos expostos às oscilações do cenário eleitoral. Entre as alternativas citadas por analistas estão títulos públicos e CDBs na renda fixa, além de ações de serviços públicos e empresas de commodities na renda variável.
João Ferreira, sócio da One Investimentos, afirma que a estratégia depende da composição de cada carteira. Para quem já distribui os recursos entre diferentes classes de ativos, a mudança pode ser pontual. Já os investidores concentrados em uma única tese devem priorizar a diversificação.
Na renda fixa, a preferência recai sobre investimentos vinculados à Selic ou ao CDI. A remuneração desses ativos acompanha os índices de referência e, por isso, tende a sofrer menos com a variação de preços provocada pelas expectativas para os juros futuros.
Entre as ações consideradas defensivas, Ferreira cita empresas de saneamento e energia, cujas receitas geralmente são indexadas à inflação. Ele também menciona companhias da construção voltadas à baixa renda e relacionadas ao Minha Casa, Minha Vida, política que, segundo o analista, independe do governo.
Cenários projetados pelos bancos
Para investidores mais arrojados, a eleição pode abrir oportunidades ligadas às políticas econômicas associadas a cada candidato. Em relatório baseado em conversas com gestores, o BTG descreve uma disputa competitiva e carteiras com níveis de risco relativamente controlados.
As ações da Petrobras são apontadas pelo banco como ativos de consenso, independentemente do resultado das urnas. Em 2026, os papéis se valorizaram em meio à alta dos preços do petróleo. Caso o desfecho eleitoral seja interpretado positivamente, o BTG também vê potencial para ações de B3, XP, BTG Pactual, Rede D’Or, Cyrela, Petrobras e Motiva.
O Citibank elaborou carteiras para os cenários de vitória de Lula e Flávio. O banco avalia que a diferença entre os dois projetos está na forma de conduzir o ajuste fiscal, e não na existência dessa necessidade. Os dois governos teriam de lidar com o desafio de recuperar a confiança na trajetória das contas públicas diante de níveis elevados de dívida.
Para um governo Lula, a carteira projetada pelo Citi inclui Cury Construtora, Embraer, WEG e BTG Pactual. No cenário de uma administração Flávio, aparecem Cyrela, Assaí, Hapvida, Petrobras, Vale e B3. A avaliação é que esse segundo quadro poderia favorecer ações cíclicas e empresas alavancadas, beneficiadas por juros menores e maior consumo ou investimento.
Pesquisas e incerteza fiscal
A diferença entre os candidatos diminuiu entre os levantamentos do Datafolha divulgados em 21 de agosto e 24 de setembro. No primeiro turno, Lula passou de 39% para 40% das intenções de voto, enquanto Flávio Bolsonaro avançou de 33% para 36%. A distância mais recente ficou dentro da margem de erro, de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Ainda não há definição sobre a política econômica dos dois candidatos. Flávio Bolsonaro defende um ajuste fiscal sem alterar a Previdência ou a política de valorização do salário mínimo. O governo Lula propõe reduzir o ritmo de crescimento dos gastos obrigatórios e aprimorar o arcabouço fiscal. Economistas avaliam, porém, que um ajuste duradouro teria de alcançar aposentadorias e benefícios sociais.
Uma percepção de maior controle sobre a dívida pode diminuir o prêmio exigido pelos investidores para financiar o governo e aliviar a pressão sobre a curva de juros. Taxas mais elevadas encarecem o crédito para empresas e reduzem a expectativa de lucro das companhias, com possível impacto negativo sobre a Bolsa.
Para a XP, a volatilidade costuma aumentar em períodos eleitorais, mas historicamente cresce mais depois da votação. A instituição afirma que a definição da equipe econômica, das políticas concretas e dos primeiros sinais sobre os gastos públicos tende a ser mais relevante para a dispersão dos ativos do que o período eleitoral em si.


