BRASIL — A corrida em grupo tem sido usada por mulheres como forma de ampliar a segurança, o apoio e o sentimento de pertencimento. O país já reúne mais de 15 milhões de corredores regulares, e a participação feminina passou de 42% para 50% em um ano, segundo o estudo Por Dentro do Corre II, realizado pela Olympikus e pela Box1824.
O avanço acompanha a formação de coletivos criados e liderados por mulheres em diferentes regiões. Além dos treinos, esses grupos constroem redes de cuidado e apoio entre as participantes.
Coletivos ocupam espaços e fortalecem vínculos
A campanha Bota Ela no Mapa reúne 12 grupos de corrida independentes e parceiros da sociedade civil. A iniciativa pretende registrar histórias de mulheres que contribuem para a vida e a segurança de outras pessoas, dentro e fora das pistas. Os relatos vão compor um mapa coletivo nacional.
Em Goiânia, o grupo Peloteiras surgiu a partir da corrida e passou a conectar mulheres pelo esporte. Thaissa Melo, integrante do coletivo, conta que uma participante pensou em desistir durante uma prova, mas encontrou forças ao ouvir as colegas torcendo por ela. “Acho que isso resume o que é correr juntas: quando você deixa de acreditar que consegue, há outras mulheres acreditando por você”, afirma.
Em São Paulo, o Trans no Corre é liderado por cinco pessoas trans e promove a ocupação de espaços públicos por diferentes corpos e identidades. Para Gael Penha, cofundador do grupo, os treinos transformam o significado dos locais ocupados. “Quando uma travesti idosa vai conosco caminhar no Minhocão, não estamos reescrevendo a história, mas dando um novo rumo”, diz.
Mulheres ainda aparecem pouco como referências em segurança
A baixa visibilidade das mulheres como agentes de segurança também aparece no levantamento Mídia, Gênero e Segurança e a construção de imaginários, do Instituto Update. O estudo analisou 49 matérias sobre segurança pública publicadas entre janeiro e junho de 2026.
Foram identificadas 224 personagens. Homens representavam 65%, enquanto mulheres eram 35%. Metade das mulheres aparecia como vítima, sobrevivente ou familiar de vítima. Entre os homens, 57,5% eram apresentados como representantes de instituições, como polícia, Justiça e governo.
Carolina Althaller, especialista em narrativas e diretora-executiva do Instituto Update, afirma que as mulheres costumam ser retratadas como vítimas, e não como pessoas que constroem soluções. Para ela, mostrar essas experiências amplia a compreensão sobre quem produz segurança no Brasil.
Como enviar uma história
Qualquer pessoa pode indicar uma mulher que faça diferença na segurança de outras. Para participar, é preciso acessar o site botaelanomapa.org e preencher o formulário com a história escolhida.
O mapa será lançado em 27 de setembro, durante uma mobilização nacional com 12 treinões simultâneos organizados por grupos de corrida de diferentes regiões do Brasil.
Entre os coletivos participantes estão Trans no Corre e Elas que Voam, de São Paulo; Divas que Correm, de Sorocaba e do Rio de Janeiro; Coletivo Corre Preto, de Porto Alegre; SBN Running - Corre das Minas, de Salvador; Corrida Viver Mulher, de Campina Grande; Divas que Correm, do Recife e de Brasília; Peloteiras, de Goiânia; Amazônidas Run, de Manaus; e Divas que Correm, de Parauapebas.
A campanha também orienta o público a acompanhar o lançamento do mapa pelo perfil @botaelanomapa no Instagram.



