A tolerância não deve ser confundida com a aceitação passiva de qualquer comportamento ou situação. Para a filósofa Lúcia Helena Galvão, a virtude está relacionada à capacidade de reagir diante dos conflitos sem ser dominado pelo impulso de controlar tudo ou pela necessidade de sempre ter razão.
Segundo a reflexão apresentada por Galvão, existe uma contradição entre a importância atribuída à tolerância nos discursos e a forma como ela é praticada no cotidiano. Quanto mais o tema aparece nas discussões, menor parece ser sua presença nas relações humanas. Esse excesso de debate poderia, portanto, revelar uma dificuldade coletiva de colocar a virtude em prática.
O excesso de discursos
Para desenvolver a ideia, a filósofa recorreu a uma reflexão atribuída a Platão. O raciocínio é que a repetição intensa de determinados temas pode indicar a falta daquilo que eles defendem. Falar muito sobre comida apontaria para a fome; insistir na justiça, para uma sociedade injusta; e destacar a liberdade, para uma situação de escravidão.
Aplicada à tolerância, essa interpretação sugere que a quantidade de discussões sobre o assunto pode estar relacionada à presença da intolerância. Esse comportamento foi associado pela filósofa a problemas vividos no mundo atual.
Reação sem submissão
Galvão também questionou o entendimento de que tolerar seria apenas suportar tudo em silêncio. A tolerância, nesse sentido, não exige resignação, passividade ou ausência de resposta. O ponto central estaria na maneira como cada pessoa reage quando se depara com algo de que discorda.
A postura tolerante preserva o equilíbrio durante o conflito. Isso significa responder sem agir a partir da vaidade, da necessidade de impor a própria visão ou da certeza de que se é sempre o dono da verdade. A virtude, portanto, não elimina a reação: ela modifica sua forma.
Essa perspectiva apresenta a tolerância como uma atitude consciente diante das diferenças e das opiniões alheias, e não como submissão ou obrigação de aceitar qualquer conduta.



