A exposição ao frio durante o armazenamento e o transporte pode provocar o escurecimento interno da manga, conhecido como corte negro (black flesh). A conclusão é de uma pesquisa de três anos conduzida pela Embrapa Semiárido, que também identificou formas de reduzir o problema em frutos destinados a mercados distantes.
O defeito aparece principalmente na polpa próxima à semente e não é percebido pela aparência externa. Por isso, a manga pode chegar ao consumidor com aspecto normal e revelar a alteração somente depois de ser cortada. O distúrbio não se manifesta no campo nem no momento da colheita: ele se desenvolve durante as etapas refrigeradas da cadeia.
Ponto de colheita e temperatura
Os testes indicaram maior vulnerabilidade em mangas colhidas ainda muito verdes. A pesquisa foi realizada com as cultivares Tommy Atkins, Kent, Palmer e Keitt, produzidas em pomares comerciais com histórico do problema.
A temperatura também foi determinante. O armazenamento entre 8°C e 10°C favoreceu o escurecimento, enquanto frutos mantidos a 12,5°C não apresentaram sintomas nos mesmos lotes. Com base nesses resultados, empresas passaram a rever o momento da colheita e as condições de resfriamento, armazenamento e transporte.
Na Blue Skies, as mangas começaram a ser mantidas acima de 10°C, e a colheita foi concentrada no segundo estágio de maturação, em vez do primeiro. A empresa produz frutas frescas cortadas e processa mangas no Brasil e em países da África para abastecer o mercado europeu.
Atmosfera controlada e tratamento
Outra alternativa é o transporte em contêineres de atmosfera controlada, com baixos níveis de oxigênio. A técnica reduz a respiração e o metabolismo das frutas, ajudando a preservar a qualidade e a controlar a incidência do distúrbio.
A pesquisa também avaliou o 1-metilciclopropeno (1-MCP), regulador de crescimento que bloqueia a ação do etileno e retarda o amadurecimento. O tratamento reduziu a ocorrência e a intensidade do escurecimento, além de preservar a firmeza da polpa e a capacidade antioxidante durante o armazenamento refrigerado.
Nas cultivares Tommy Atkins e Keitt, a incidência entre frutos sem tratamento ficou próxima de 100% depois de 45 dias a 9°C. Com 200 nanolitros por litro (ppb) de 1-MCP, o índice caiu para menos de 60%.
Reflexos para exportadores
O Brasil é o sexto maior produtor mundial de manga, e mais de 90% das exportações vêm do Vale do São Francisco. No trajeto para a Europa, os Estados Unidos e a Ásia, as frutas permanecem várias semanas em contêineres refrigerados, condição que pode favorecer o distúrbio.
Quando a carga chega ao destino, inspeções verificam, entre outros pontos, a firmeza da polpa e a presença de alterações fisiológicas internas. Se a ocorrência superar o limite geralmente estabelecido pelos importadores, de 10% das frutas avaliadas, toda a carga poderá ser rejeitada.
Na Agrodan, que produz e exporta mais de 32 milhões de quilos de manga por ano, o estudo levou a mudanças no manejo. A empresa passou a combinar ajustes no ponto e no horário da colheita, priorização das horas mais frescas, climatização do galpão de recepção, redução do intervalo até o embarque, aplicação de 1-MCP e revisão das temperaturas de resfriamento e transporte.
A Embrapa também desenvolve uma ferramenta para identificar, antes da exportação, lotes mais suscetíveis. Espectrômetros portáteis analisam a luz visível e o infravermelho próximo, enquanto um algoritmo de aprendizado de máquina distingue frutos saudáveis dos mais vulneráveis ainda na colheita, com precisão entre 80% e 90%, antes do surgimento dos sintomas.



