As mulheres ampliaram sua presença na disputa pelo Senado, embora ainda sejam minoria entre os concorrentes. Dos 319 inscritos, 70 são mulheres, o equivalente a 21,9%. Em 2018, elas representavam 17,2% das candidaturas. Nesta eleição, há concorrentes mulheres em todos os estados, assim como ocorreu em 2014.
Cada estado escolherá dois senadores, em uma renovação de dois terços das 81 cadeiras da Casa. Atualmente, 15 mulheres integram o Senado, mas seis delas permanecem nos cargos para cumprir mais 4 anos de mandato. A participação feminina nunca ultrapassou 18,5% da composição do Senado. Especialistas avaliam que a bancada pode chegar a pelo menos um quarto das cadeiras na próxima legislatura.
Para o cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), o cenário abre uma possibilidade concreta de avanço feminino caso as pesquisas se confirmem. O Distrito Federal é citado como uma das unidades da federação que pode formar uma bancada totalmente feminina. Michelle Bolsonaro (PL), Bia Kicis (PL), Leila Barros (PDT) e Érika Kokay (PT) aparecem entre as candidatas com possibilidade de eleição. A senadora Damares Alves (Republicanos) permanecerá no cargo até 2031.
A presença de mulheres na disputa também está relacionada ao interesse crescente dos partidos pelo Senado. Entre as atribuições dos senadores estão a sabatina de indicados ao Supremo Tribunal Federal (STF) e a votação de pedidos de impeachment de ministros da Corte. Com isso, as siglas passaram a direcionar para a Casa lideranças femininas consideradas competitivas, inclusive nomes que não teriam a mesma perspectiva em disputas pelos governos estaduais ou pela Presidência da República.
Bancada e articulação política
A bancada feminina foi institucionalizada no Senado em 2021. Durante a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, nenhuma senadora foi indicada pelos partidos para integrar o colegiado, mas elas se revezaram no acompanhamento das reuniões, mesmo sem direito a voto.
As intervenções das senadoras levaram a declarações de Luís Miranda, Eduardo Pazuello e Ernesto Araújo. Miranda afirmou a Simone Tebet que Jair Bolsonaro sabia do envolvimento de Ricardo Barros em irregularidades na compra de vacinas. Pazuello admitiu a Leila Barros que errou na condução da pandemia. Kátia Abreu, por sua vez, ouviu de Araújo que a diplomacia brasileira havia prejudicado a negociação para a compra de imunizantes.
A pesquisadora Karolina Roeder, do Instituto Representação e Legitimidade Democrática (ReDem), considera a articulação suprapartidária uma possibilidade de atuação das mulheres no Senado. Ela ressalta, porém, que temas que dividem as senadoras podem dificultar a manutenção dessa unidade. A união em torno de políticas de dignidade menstrual é citada como exemplo de convergência entre parlamentares de esquerda e direita.
O próximo presidente do Senado precisa de 41 votos para ser eleito. Na avaliação de Medeiros, o crescimento da bancada feminina pode ampliar sua influência para além das pautas tradicionalmente associadas às mulheres.
Estratégias dos partidos e recursos
A Unidade Popular lidera entre os partidos com mais candidatas ao Senado, com 10 nomes, seguida pelo PSOL, com 9, e pelo PT, com 7. O PT lançou candidaturas próprias em 18 estados e também decidiu apoiar nomes de outras siglas, numa estratégia de formação de uma base política ampla para a disputa nacional.
No campo da direita, o PL, de Flávio Bolsonaro, tem quatro mulheres na corrida. O partido busca aumentar sua bancada no Senado e influenciar uma eventual deliberação sobre o impeachment de ministros do STF. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), as mulheres são 53% do eleitorado.
O aumento das candidaturas não eliminou as barreiras dentro das próprias legendas. O Painel de Monitoramento da Câmara dos Deputados mostra que 26,2% dos recursos do Fundo Eleitoral foram destinados, neste ano, às campanhas de candidatas ao Senado. No mesmo período de 2018, a parcela era de 16,9%. A legislação exige que pelo menos 30% dos recursos do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário, além do tempo de propaganda de rádio e TV, sejam destinados às campanhas de mulheres.
Soraya Thronicke (PSB-MS), senadora e candidata à reeleição, afirma que as mulheres ainda enfrentam dificuldades nos partidos, com pouca participação nas decisões e falta de autonomia sobre os recursos das campanhas. Karolina Roeder também observa que o dinheiro tende a se concentrar em algumas candidaturas, enquanto novatas podem ficar sem financiamento ou precisar repassar recursos a homens.
A primeira senadora negra do Brasil foi Benedita da Silva (PT-RJ), em 1995. Aos 84 anos, em campanha para o último mandato ao Senado, ela defende a continuidade de sua atuação e diz que é necessário mudar a composição da Casa diante da radicalização política.



