A atuação do governo de Donald Trump na América Latina passou a incluir o Brasil no contexto das eleições presidenciais de outubro. Analistas avaliam que os Estados Unidos podem recorrer a ameaças, sanções e negociações para favorecer o senador Flávio Bolsonaro e pressionar o governo brasileiro.
A estratégia é associada à chamada doutrina Donroe, uma releitura da Doutrina Monroe de 1823. Em vídeo divulgado pelo Departamento de Estado americano, o embaixador dos Estados Unidos no Panamá, Kevin Marino Cabrera, afirmou que Trump seria o defensor mais recente da política que apresenta os Estados Unidos como potência dominante nas Américas.
O governo brasileiro reagiu com desconforto ao vídeo. Em discurso na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas na terça-feira (22/09), Luiz Inácio Lula da Silva criticou tentativas de ingerência externa em processos eleitorais e declarou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
Pressão sobre o governo e as eleições
A Agência Brasileira de Inteligência enviou ao governo e à Justiça Eleitoral um relatório que aponta risco crítico de interferência eleitoral dos Estados Unidos. O documento se soma a cartas encaminhadas pelo Instituto Vladimir Herzog a autoridades em Brasília e ao secretário-geral da ONU, António Guterres.
Desde o ano passado, a administração republicana aumentou a pressão sobre o Brasil. Entre as medidas estão a imposição de tarifas comerciais, a classificação de facções como terroristas, sanções contra pessoas apontadas como ligadas ao Primeiro Comando da Capital e punições a autoridades e familiares. Também houve uma indicação de embaixador para Brasília fora do rito diplomático habitual.
Nas negociações sobre as tarifas, a Casa Branca pediu que o governo brasileiro garantisse a participação de dissidentes políticos. A solicitação foi rejeitada. Também há avaliação, em Washington, sobre uma nova rodada de sanções contra Alexandre de Moraes e outros integrantes do Supremo Tribunal Federal, às vésperas do primeiro turno.
Para Pedro Telles, professor da Fundação Getúlio Vargas, a aproximação entre Trump e integrantes da família Bolsonaro tende a elevar a tensão conforme o segundo turno se aproxima. O professor afirmou que “um país nunca busca interferir na eleição de outro sem, por trás disso, querer defender interesses próprios”.
Contestação do resultado
Uma das hipóteses discutidas por analistas é que os Estados Unidos contestem o resultado das urnas caso Flávio Bolsonaro não vença. Dov H. Levin, professor da Universidade de Hong Kong, avalia que uma eventual intervenção poderia ocorrer de forma aberta e próxima da votação, para ampliar as chances do candidato.
O questionamento da integridade eleitoral já é usado como estratégia política pelo bolsonarismo e pelo trumpismo. Donald Trump voltou a afirmar, em julho deste ano, que sua derrota para Joe Biden em 2020 foi fraudulenta. No Brasil, Jair Bolsonaro e aliados fizeram denúncias sem fundamentação contra o sistema de votação, conduta que contribuiu para a condenação do ex-presidente e sua inelegibilidade.
Jennie Lincoln, diretora da missão de observação que será enviada pelo Carter Center ao Brasil, afirmou que contestações eleitorais sem evidências colocam a democracia em risco. Especialistas do Carter Center, da União Europeia e da Organização dos Estados Americanos devem avaliar a transparência do pleito.
Limites da influência americana
O cientista político Oliver Stuenkel, da Universidade de Harvard e do Fundo Carnegie para a Paz Internacional, avalia que as investidas de Trump não impediram a prisão de Bolsonaro e que Lula transformou a pressão americana em tema de campanha. Para ele, a doutrina Donroe prioriza intervenções públicas e ameaças em redes sociais, em vez de operações secretas ou de uma política de influência de longo prazo.
Um levantamento de Levin indica que os Estados Unidos atuaram para influenciar 128 eleições entre 1946 e 2014, sendo 39 na América Latina. Segundo o pesquisador, governos impulsionados ao poder pela Casa Branca tendem a cooperar mais com os Estados Unidos em votações internacionais e em acordos alinhados aos interesses americanos.
Analistas apontam riscos à soberania nacional e à democracia brasileira, enquanto parte de influenciadores bolsonaristas acompanha e apoia uma eventual ofensiva de Trump contra instituições do país.



