Belo Horizonte, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
O radar da região e do país
Brasil

Uruguai concentra chegada de cubanos e amplia desafios de integração

Fluxo migratório cresceu desde 2019, impulsionado por serviços públicos, estabilidade e restrições à rota tradicional para os Estados Unidos.

Uruguai concentra chegada de cubanos e amplia desafios de integração
Foto: Madelyn del Río/BBC News Brasil

O Uruguai se tornou um dos principais destinos de cubanos que deixam a ilha em meio ao agravamento da crise humanitária. Em 2025, o número de entradas de cidadãos cubanos no país superou as saídas em 14.961 pessoas. Entre janeiro e julho deste ano, o saldo positivo chegou a 8.123.

A intensificação do movimento também aumentou a fila de pedidos de refúgio. No primeiro semestre deste ano, foram registrados, em média, 1,3 mil pedidos por mês. Até o fim de junho, 30.715 solicitações aguardavam decisão, de acordo com a Comissão para Refugiados (Core). Os cubanos representavam 89% dos pedidos, segundo a vice-chanceler uruguaia e presidente da Core, Valeria Csukasi.

Para Csukasi, o acúmulo resulta principalmente da diferença entre o volume de solicitações e a capacidade da Core para analisá-las. O Uruguai tem 3,4 milhões de habitantes e, proporcionalmente à população, está entre os países onde a chegada de cubanos mais cresceu.

Uma rota que passa pelo Brasil

A trajetória de Liudmila Medina ilustra o caminho percorrido por muitas famílias. Ela deixou Cuba com o marido, três filhos e uma gravidez, em uma viagem de mais de 7 mil quilômetros. O plano inicial era chegar aos Estados Unidos via Nicarágua, mas a família perdeu o voo depois que um passaporte venceu.

Para seguir viagem, Medina conta que conseguiu um novo documento e pagou quase US$ 13 mil a uma rede de atravessadores. O grupo desembarcou na Guiana, cruzou o país em uma van por cerca de 17 horas e depois entrou no Brasil por Roraima. A família atravessou o território brasileiro e chegou à fronteira entre Santana do Livramento e Rivera em abril de 2024.

Medina viajava com Tristán, que tinha 12 anos e problemas no sistema nervoso central, além de Gael, de dois anos, e Galilea, de um ano. Ela também estava grávida de oito meses. No Uruguai, teve outro filho e passou a receber apoio para moradia e assistência financeira de uma fundação voltada a pessoas refugiadas.

Uma análise da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e da Organização Internacional para as Migrações (OIM), divulgada em abril, apontou aumento da entrada de cubanos no Uruguai a partir do Brasil. Entre janeiro e outubro de 2025, o número superou 11 mil, com média de 30 pessoas por dia no controle migratório conjunto.

A Guiana é apontada como a principal porta de entrada porque é o único país da América do Sul que não exige visto de cubanos. De lá, muitos seguem para o Brasil ou para o Uruguai com o auxílio de redes de contrabando de migrantes, que cobram entre US$ 1,2 mil e US$ 10 mil por pessoa. O documento também registrou casos de agressões físicas e detenção ilegal.

Por que o país é escolhido

A rota tradicional rumo aos Estados Unidos foi afetada pelas restrições impostas pelo governo de Donald Trump e pela exigência de visto para cubanos adotada pela Nicarágua, que funcionava como ponte de saída da ilha. No Uruguai, os migrantes encontram serviços públicos gratuitos de saúde e educação, assistência social para famílias de baixa renda e um ambiente de estabilidade política e econômica.

Madelyn del Río, presidente da ONG Manos Cubanas, estima que cerca de 60 mil cubanos vivam atualmente no país. O número é cinco vezes maior que os 11.826 registrados no censo de 2023, quando os nascidos em Cuba formavam a terceira maior comunidade estrangeira, atrás de argentinos e venezuelanos.

A maioria ainda entra pela fronteira com o Brasil, segundo Del Río, por ser uma alternativa mais rápida aos procedimentos de visto, inclusive os relacionados à reunificação familiar. Ela chegou ao Uruguai em 2019, trabalhou como faxineira e hoje é babá, tem cidadania uruguaia e conseguiu levar os filhos e a neta para o país. Seu diploma de socióloga, porém, ainda não foi revalidado por causa do custo do processo em Cuba.

Os cubanos também lideram a concessão de residências permanentes no Uruguai. Eles receberam 6.185 no ano passado e outras 4.665 nos primeiros sete meses deste ano. Parte dos imigrantes, no entanto, permanece em situação indefinida porque os pedidos de refúgio continuam pendentes ou foram rejeitados. Isso dificulta o acesso a crédito bancário, a apresentação de garantias para aluguel e a reunião com familiares.

A deputada Leydis Aguilera apresentou um projeto de lei para conceder residência permanente a quem comprovar vínculos estabelecidos com o país. Nascida em Cuba, ela chegou ao Uruguai há 16 anos, revalidou o diploma de engenheira em telecomunicações e eletrônica e se tornou a primeira deputada nascida na ilha na história uruguaia.

Presença no cotidiano

A comunidade cubana já está presente em diferentes atividades no país, de serviços de saúde e entregas a comércio, segurança e trabalho rural. Em Santa Rosa, cidade de cerca de 7 mil habitantes, aproximadamente 1,1 mil imigrantes cubanos trabalham principalmente em propriedades rurais próximas e em uma empresa avícola.

O prefeito Ramiro Azor afirma que a prefeitura organiza oficinas de convivência e prepara uma exposição sobre comidas, música e costumes dos novos moradores. Segundo ele, os cubanos também movimentam o comércio local, especialmente na feira de domingo.

A integração, porém, convive com relatos de discriminação. Carmen Díaz, que abriu uma empresa de manicure em Pocitos, disse ter recebido comentários racistas e xenófobos, embora considere que foram poucos. Lisbel Becquer, que trabalha em um centro agroalimentar em Montevidéu, respondeu nas redes sociais a críticas de que cubanos tirariam empregos dos uruguaios.

Para Medina, a escolha pelo Uruguai foi influenciada pela possibilidade de tratamento para o filho. Tristán havia passado por cirurgias em Cuba e precisava de acompanhamento. A família enfrentou dificuldades no início, mas obteve apoio público para moradia e para a entrada das crianças em uma pré-escola.

Hoje, Tristán é acompanhado por especialistas no hospital Pereira Rossell. Medina vive em um apartamento subsidiado em Montevidéu com o marido, que trabalha como entregador, e os filhos. Ela conseguiu levar a mãe para o país e afirma que pretende comprar um carro e uma casa no Uruguai.

Texto produzido pela Redação Radar do Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Assine nossa newsletterAs principais notícias do dia no seu e-mail.