O comércio brasileiro fechou mais vagas formais do que abriu entre janeiro e julho deste ano. O saldo ficou negativo em 7,8 mil postos, na primeira ocorrência desse tipo desde 2021, quando começou a atual metodologia do Cadastro de Empregados e Desempregados (Caged).
A reversão foi puxada pelo varejo e ocorreu em meio a juros altos, inadimplência, crédito restrito, recuperações judiciais e mudanças no padrão de consumo associadas ao avanço das vendas online. No mesmo intervalo de 2025, o comércio havia registrado saldo positivo de 125,8 mil vagas.
O levantamento foi elaborado pela economista e pesquisadora Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre), com microdados do Caged do Ministério do Trabalho. Na comparação anual, o setor teve uma diferença de 133,8 mil vagas.
“Foi a primeira vez desde a pandemia que a gente começou a ver não apenas uma desaceleração (do emprego), mas uma destruição de vagas”, afirmou Janaína.
Varejo concentra a perda
Entre janeiro e julho, o varejo eliminou 51,7 mil postos, ante saldo positivo de 44,1 mil no mesmo período do ano anterior. No atacado e no comércio de veículos automotores, o saldo continuou positivo, mas recuou 48% e 44%, respectivamente, na comparação com os mesmos meses do ano anterior.
Para Janaína, o problema do comércio está concentrado no varejo porque o segmento reúne fatores que afetam as vendas e a situação financeira das empresas. Produtos comprados a prazo, como móveis e eletrodomésticos, são especialmente impactados quando as famílias enfrentam orçamento comprometido e crédito mais caro.
Em julho, as vendas do comércio varejista recuaram 0,8% ante junho, com ajuste sazonal, conforme a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As vendas de móveis e eletrodomésticos caíram 4,9%, a maior retração do segmento desde dezembro de 2023, quando o recuo havia sido de 6,6%.
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) avaliou que o custo do crédito e o endividamento das famílias continuaram limitando as compras de maior valor. A margem reduzida do varejo também estimula investimentos em produtividade e otimização de processos, o que pode diminuir a necessidade de contratação.
Recuperações judiciais e comércio digital
O setor também concentra o maior número absoluto de empresas em recuperação judicial. Em junho deste ano, havia 6.341 companhias nessa condição no país, excluídas microempresas, Organizações Não Governamentais (ONGs), filiais e empresas inativas. O comércio reunia 1.649 CNPJs no primeiro semestre.
Empresas que recorrem à recuperação judicial costumam fechar lojas e demitir como parte da renegociação de dívidas. A Casas Bahia, que estava em recuperação judicial desde agosto, fechou 298 lojas físicas e demitiu 3 mil trabalhadores dentro de um plano de reestruturação.
Outra mudança é a transferência de parte das vendas de lojas físicas para marketplaces, centros de distribuição, hubs logísticos e operações automatizadas. Segundo Janaína, esse movimento pode reduzir a necessidade de vendedores, caixas e outros trabalhadores de lojas, mesmo quando as vendas aumentam ou permanecem estáveis.
Contratações temporárias
A proximidade da Black Friday, no fim de novembro, e do Natal, em dezembro, deve elevar a contratação de temporários. A avaliação de Janaína, porém, é que esse movimento não será suficiente para recuperar o saldo anual do emprego formal no comércio.
A pesquisadora também considera menor a possibilidade de efetivação dos temporários neste ano. Para ela, o volume de contratações tende a ser inferior ao dos anos anteriores, com mais dificuldade para transformar esses postos em empregos permanentes.
No conjunto do mercado de trabalho, o saldo entre janeiro e julho foi positivo em 972,2 mil vagas formais, mas ficou 29% abaixo do registrado nos mesmos meses de 2025. A agropecuária abriu 51,4 mil postos, a indústria teve 154 mil e os serviços, 591,5 mil. A construção civil foi o único segmento com alta, para 180,4 mil vagas, expansão de 2%.



