O excesso de regras, a judicialização e a prioridade dada aos procedimentos podem estar reduzindo a capacidade dos Estados Unidos de ampliar a oferta de moradias, infraestrutura e pesquisa. Essa é a tese central de Ezra Klein e Derek Thompson no livro Abundância, publicado em 2025, que busca explicar por que a vida do americano médio parece ter piorado apesar dos avanços tecnológicos das últimas décadas.
Os autores afirmam que o país criou muitos subsídios para o consumo, mas oferece menos apoio à produção de bens e serviços a custos menores. O resultado seria uma economia em que a demanda é estimulada, enquanto a ampliação da oferta enfrenta obstáculos institucionais.
Moradia e valorização dos imóveis
A habitação é apresentada como o exemplo mais importante desse problema. Nos anos 50 e 60, os americanos tinham acesso mais fácil à casa própria, ao plano de saúde e ao ensino superior para os filhos, embora contassem com menos recursos tecnológicos. O tempo médio necessário para adquirir um imóvel subiu de 2,3 anos na década de 50 para sete nos anos 2000.
Klein e Thompson relacionam esse encarecimento a regras de zoneamento restritivas e códigos de construção complexos. Na avaliação dos autores, essas normas passaram a funcionar como instrumentos de exclusão. Agendas ambientais e de proteção a minorias podem elevar custos e dificultar projetos habitacionais e de infraestrutura. A judicialização também pode encarecer ou inviabilizar empreendimentos, com maior atenção aos procedimentos do que aos resultados.
Outro fator seria a chamada democracia dos proprietários. Como a maioria dos eleitores tem imóvel e a habitação representa a principal parcela da riqueza dessas famílias, forma-se uma coalizão favorável à valorização dos imóveis. Esse interesse pode entrar em conflito com políticas destinadas a tornar a casa própria mais acessível para quem está começando a vida.
O livro também aborda as pensões urbanas, formas baratas de moradia coletiva que abrigaram gerações de trabalhadores e se tornaram ilegais à medida que avançaram as regras de zoneamento e os códigos de construção.
Infraestrutura e ciência
Segundo os autores, entraves semelhantes aparecem na infraestrutura. O projeto do trem de alta velocidade da Califórnia, aprovado em referendo em 2008, quase não avançou mesmo depois de quase duas décadas. A explicação apresentada não é a falta de recursos, mas a combinação de exigências ambientais, processos judiciais, disputa entre agências e prefeituras e uma cultura administrativa concentrada no rito.
Na ciência, as verbas do NIH, o National Institutes of Health, são descritas como concentradas em linhas de pesquisa já consolidadas e submetidas a muitas regras. Em contraste, a DARPA, a Defense Advanced Research Projects Agency, teria mais discricionariedade para os cientistas e menos condicionamentos para o uso dos recursos.
O endurecimento da imigração e o aumento da burocracia também aparecem como obstáculos. Cientistas gastam cerca de 40% do tempo preenchendo relatórios e preparando propostas e orçamentos, segundo o diagnóstico apresentado no livro.
Klein e Thompson chamam esse ambiente de liberalismo anticrescimento: um conjunto de objetivos de política pública, incentivos ao litígio e controles de processo que inibiria a produção, mesmo quando as intenções distributivas ou ambientais são consideradas positivas. A perda de capacidade de entrega do Estado é associada à queda da confiança dos americanos no governo, de 77% em 1964 para 16% em 2023.
O economista Manoel Pires, do FGV-IBRE, abordou questões semelhantes em apresentação sobre problemas econômicos subjacentes à economia mundial. O diagnóstico também pode ser aplicado ao Brasil, especialmente na infraestrutura, onde os entraves regulatórios e judiciais se somam à limitação fiscal e à escolha de transferir recursos em vez de investir.



