A inteligência artificial pode estar próxima de impulsionar avanços em três áreas com potencial de transformar a vida cotidiana: supercondutividade em condições ambientes, novos antibióticos e fusão nuclear comercial. O debate ganhou força depois do anúncio, na semana passada, de uma solução produzida por IA para o problema de Navier-Stokes, um dos problemas do milênio.
O desafio matemático foi resolvido em alguns poucos dias, depois de atravessar gerações de pesquisadores. No início deste ano, mercados de predição estimavam em menos de 40% a possibilidade de uma IA solucionar um dos problemas do milênio até 2030. O resultado, ainda em 2026, ampliou a discussão sobre quais descobertas podem vir a seguir.
Materiais, medicamentos e energia
Uma das possibilidades é encontrar um material supercondutor que funcione à temperatura e à pressão ambientes. Esse tipo de material permitiria transportar eletricidade sem as perdas provocadas pela resistência dos fios e sem a necessidade de refrigeração extrema. A IA poderia analisar um número gigantesco de combinações entre átomos e apontar opções para os pesquisadores testarem.
Cerca de 8-9% da eletricidade gerada no mundo é perdida durante a transmissão e a distribuição. Um material que apresentasse essas características e pudesse ser produzido em escala abriria caminho para redes elétricas com menos desperdício, motores mais eficientes e ressonâncias magnéticas mais acessíveis.
Outra frente é a criação de antibióticos contra bactérias Gram-negativas. Esses microrganismos têm uma membrana externa que dificulta a entrada de muitos medicamentos. O laboratório de James Collins, no MIT, já empregou IA para gerar e avaliar computacionalmente mais de 36 milhões de compostos. A análise encontrou candidatos com estruturas diferentes das presentes nos antibióticos conhecidos.
Um dos compostos afetou a formação da membrana e combateu, em camundongos, a gonorreia resistente. Ainda faltam testes que comprovem sua segurança e eficácia em pessoas.
A terceira possibilidade é a fusão nuclear comercial. A reação que alimenta as estrelas já pode ser reproduzida, mas ainda é necessário transformá-la em uma fonte capaz de gerar eletricidade continuamente e cobrir seus próprios custos. Entre os desafios está o controle de um plasma mais quente que o centro do Sol, área em que a IA teve resultados promissores em reatores experimentais.
A fusão poderia levar a uma energia abundante e com baixas emissões. O efeito alcançaria atividades como a produção de alimentos, o transporte de mercadorias e a dessalinização da água do mar.
As discussões também mostram um limite das previsões: as pessoas tendem a repetir os mesmos desejos, como supercondutividade, antibióticos, fusão e câncer. Em 1890, ninguém esperava os raios X, porque essa possibilidade ainda não era conhecida. As descobertas mais relevantes da IA podem surgir justamente fora das listas atuais.



