O governo de Donald Trump finalizou nesta segunda-feira, 28, a revisão dos padrões de eficiência de combustível para carros novos e caminhonetes nos Estados Unidos. A mudança reduz as exigências estabelecidas durante a administração de Joseph R. Biden Jr. e retira um dos principais incentivos regulatórios à transição para veículos elétricos.
Pelas novas normas do Departamento de Transportes dos EUA, as montadoras deverão alcançar uma média de 34,9 milhas por galão, equivalente a 14,84 quilômetros por litro, nos veículos do ano-modelo 2031. O índice anterior, definido no governo Biden, era de 50,4 milhas por galão, ou 21,43 quilômetros por litro.
Trump afirmou que a flexibilização poderá diminuir o preço dos veículos para os consumidores. A acessibilidade financeira se tornou uma questão relevante para as próximas eleições de meio de mandato. No fim de semana, o presidente escreveu nas redes sociais que a alteração representava um “GRANDE DIA PARA OS TRABALHADORES DA INDÚSTRIA AUTOMOBILÍSTICA E PARA OS COMPRADORES DE CARROS AMERICANOS”.
Efeito sobre consumidores e montadoras
Críticos contestam a avaliação de que a medida reduzirá os gastos das famílias. Veículos menos eficientes podem exigir mais despesas com abastecimento ao longo do tempo. A preocupação ocorre em um momento de alta dos preços da gasolina nos EUA: a média nacional do combustível comum chegou perto de US$ 4,50 por galão, ou US$ 1,19 por litro, aumento de mais de 40% em relação ao mesmo período do ano passado.
As novas regras também devem ser fáceis de cumprir para as empresas. Os veículos novos registraram média de 30,1 milhas por galão, equivalentes a 12,8 quilômetros por litro, no ano-modelo 2024. Além disso, parlamentares republicanos no Congresso eliminaram, no ano passado, as multas aplicadas às montadoras que não cumprissem os padrões. A alteração poupou milhões de dólares às empresas e reduziu o efeito prático das exigências.
O secretário de Transportes, Sean Duffy, disse que o governo encerrou uma exigência que, na avaliação da administração Trump, obrigava as empresas a produzir veículos elétricos mais caros. Trump havia classificado políticas desse tipo como uma “imposição de veículos elétricos” e argumentado que regulamentações rigorosas aumentavam o preço dos modelos novos.
A revisão ocorre após outras medidas de recuo nas políticas ambientais e industriais dos Estados Unidos. Em fevereiro, a Agência de Proteção Ambiental eliminou os limites federais para emissões de poluentes de automóveis que contribuem para o aquecimento global. No ano passado, o Congresso revogou créditos fiscais de até US$ 7,5 mil para compradores de carros elétricos novos e impediu a Califórnia de adotar limites próprios, mais rigorosos, para a poluição automotiva.
Reações e disputa tecnológica
Gina McCarthy, que foi assessora de clima do governo Biden, afirmou que os padrões de eficiência haviam reduzido os gastos dos americanos e a poluição ao mesmo tempo. Para ela, a mudança pode afastar os EUA da liderança em inovação e prejudicar a acessibilidade financeira.
Montadoras haviam criticado as regras anteriores, consideradas difíceis de cumprir e associadas a uma transição rápida para modelos elétricos. John Bozzella, presidente-executivo da Alliance for Automotive Innovation, afirmou que os padrões anteriores não correspondiam às condições do mercado e à demanda dos consumidores. O grupo declarou uma aprovação cautelosa da norma final.
A decisão pode estimular a produção de mais picapes e SUVs grandes movidos a gasolina, que são mais lucrativos do que os carros tradicionais. Analistas, porém, avaliam que o atraso no desenvolvimento de veículos elétricos pode enfraquecer a posição das montadoras americanas diante de concorrentes estrangeiras. No ano passado, menos de 10% dos carros novos vendidos nos Estados Unidos eram elétricos.
Jessica Caldwell, chefe de análise de dados do site automotivo Edmunds.com, afirmou que as empresas americanas não podem abandonar a tecnologia elétrica enquanto outras regiões do mundo ampliam sua adoção.
O Departamento de Transportes calcula que a flexibilização reduzirá em US$ 1.300 o custo médio de um veículo novo e proporcionará uma economia de US$ 138 bilhões aos americanos nos próximos cinco anos. Um estudo publicado na revista Science contestou as premissas usadas pelo governo, incluindo a forma como os consumidores valorizam a economia de combustível. Christopher Knittel, professor de economia de energia do MIT, afirmou que a revogação dos padrões não gera economia para os consumidores.
O Congresso criou as normas de eficiência de combustível em 1975, após um embargo de petróleo imposto por países do Oriente Médio. Desde então, as montadoras ampliaram a autonomia dos veículos e passaram a oferecer mais modelos elétricos e híbridos. O setor de transportes é a maior fonte de gases de efeito estufa, entre eles o dióxido de carbono, associados ao aquecimento do planeta.
A administração Biden havia endurecido os padrões como parte de sua estratégia contra as mudanças climáticas. O governo Trump também descartou uma norma complementar que limitaria as emissões de dióxido de carbono de carros e caminhões novos. A proposta anterior buscava alinhar esses limites aos padrões de eficiência de combustível.



