O avanço da produtividade no agronegócio brasileiro não garante, por si só, que as empresas estejam criando valor. A avaliação dos resultados precisa considerar também quanto custa manter terras, máquinas, insumos e estruturas administrativas empregados na atividade, especialmente em um cenário de custos elevados, volatilidade dos preços internacionais e juros restritivos.
A expansão da produção e da demanda internacional valorizou as terras e aumentou a mecanização e a sofisticação tecnológica das operações. Com isso, cresceu a base de capital necessária para sustentar o negócio. O setor consolidou sua presença na oferta global de alimentos e commodities agrícolas, mas passou a enfrentar um dilema: os ganhos produtivos não têm se convertido automaticamente em melhora dos resultados operacionais.
Nesse contexto, o Valor Econômico Agregado (EVA) aparece como uma ferramenta para verificar se a atividade remunera adequadamente o capital utilizado. O indicador desconta do lucro operacional líquido o custo de oportunidade de todo o capital investido, considerando seu valor de mercado e o risco assumido na operação.
A diferença em relação ao lucro contábil muda a forma de analisar o desempenho empresarial. Em The Quest for Value, G. Bennett Stewart III afirma que métricas tradicionais, como lucro líquido e retorno sobre o patrimônio, podem distorcer a avaliação porque usam valores contábeis que não representam necessariamente o valor de mercado dos ativos.
A terra ilustra esse problema. Mesmo quando está quitada, ela tem valor de mercado e representa capital imobilizado, que poderia ser direcionado a outras alternativas de investimento. Se esse custo de oportunidade não entra na análise, uma decisão pode parecer rentável enquanto remunera o capital abaixo do retorno oferecido por opções de menor risco.
Uma propriedade avaliada em R$ 100 milhões e com lucro operacional de R$ 10 milhões aparenta apresentar bom desempenho. Porém, com um custo médio ponderado de capital de 18% ao ano, o custo implícito do ativo chega a R$ 18 milhões. Nesse caso, há destruição de valor apesar do resultado contábil positivo.
A proposta exige que as empresas definam com clareza seu modelo de negócio, compreendam o core business, mensurem os riscos e precifiquem tanto o capital investido quanto seu custo total. Para o autor, a gestão do agronegócio deve incorporar uma cultura de alocação eficiente de recursos, tratando as propriedades como ativos financeiros e vinculando decisões, metas e incentivos ao retorno ajustado ao risco.
Guilherme Nodari Sguario, aluno do Mestrado Profissional em Administração na FGV EAESP, economista e empresário no agronegócio, defende que o próximo avanço do setor seja financeiro e estratégico. Nesse modelo, a produtividade continua relevante, mas deixa de ser associada automaticamente ao lucro contábil e à criação de valor.



