A geopolítica passou a ser um fator central para empresas que atuam em um ambiente global marcado por disputas entre Estados. A avaliação é de Eduardo Winston Silva, diretor da Globus Medical para o Brasil, presidente do Conselho de Administração da ABIMED e aluno do Doutorado Profissional em Administração da EAESP/FGV.
Para Silva, executivos brasileiros ainda concentram a discussão em estratégia, inovação e crescimento, mas dedicam pouca atenção às mudanças no cenário internacional. Na avaliação dele, ignorar esse movimento cria riscos para empresas que precisam tomar decisões sobre investimentos, tecnologia, capital e fornecedores.
A análise foi influenciada por um curso realizado no final de 2025 na National University of Singapore, chamado Managing Geopolitics in International Business. Durante as aulas, o professor Alex Capri apresentou o conceito de guerra híbrida, que combina instrumentos comerciais, tecnológicos, financeiros, informacionais e militares.
Da globalização à disputa estratégica
O autor relaciona a transformação atual ao fim da Guerra Fria. Após a queda do Muro de Berlim, o comércio internacional se expandiu, as cadeias produtivas foram distribuídas entre diferentes países e empresas passaram a organizar sua produção em escala global. Instituições multilaterais, como a ONU e a OMC, atuavam na coordenação e na arbitragem desse sistema.
Em 1989, o Produto Interno Bruto da China era menor que o do Brasil. Atualmente, o país é a segunda maior economia do mundo e disputa liderança tecnológica em setores considerados estratégicos. A expansão chinesa, segundo Silva, foi acompanhada pela atração de fábricas, pelo desenvolvimento de infraestrutura, pela qualificação da força de trabalho e pela absorção sistemática de tecnologia.
A dependência da manufatura chinesa ganhou outra dimensão durante a Covid-19, quando máscaras e insumos médicos passaram a ser tratados como itens relacionados à segurança nacional. Desde então, produtos comerciais também passaram a ser avaliados pelo potencial de uso estratégico.
Governos ampliaram sanções e tarifas e passaram a estimular o retorno ou a transferência de indústrias para países politicamente alinhados. Semicondutores, inteligência artificial e redes digitais também entraram no centro das disputas, enquanto cadeias de produção são reorganizadas com base em eficiência econômica e alinhamento estratégico.
Uma competência para lideranças
Silva afirma que esse cenário não se resume à divisão entre direita e esquerda ou entre conservadores e progressistas. Para ele, a mudança exige das lideranças uma capacidade de interpretar contextos políticos, institucionais e culturais distintos, chamada por pesquisadores de inteligência cultural aplicada à geopolítica empresarial.
A conclusão do autor é que empresas brasileiras precisam incorporar essa leitura às decisões de negócios. Eduardo Winston Silva é também presidente do Conselho de Administração da ABIMED e aluno do Doutorado Profissional em Administração da EAESP/FGV.



