Durante a sabatina, Flávio Bolsonaro apresentou versões contrariadas por fatos relacionados à tentativa de golpe de Estado, às urnas eletrônicas, às mudanças climáticas, ao financiamento de um filme, ao tarifaço e a Adriano da Nóbrega. Em um dos episódios, ele reconheceu ter “falado errado”.
Flávio Bolsonaro (PL) entrou no estúdio na noite de sexta-feira (28) com a intenção de expor sua versão sobre os principais assuntos ligados à candidatura à Presidência. Ao longo dos 40 minutos de conversa com César Tralli e Renata Vasconcellos, no entanto, o candidato precisou responder a uma situação que costuma ser desconfortável: os entrevistadores apresentaram fatos que contrariavam declarações feitas por ele em ao menos seis ocasiões.
A análise da entrevista foi realizada a partir dos vídeos e da transcrição. O cruzamento dos trechos com o conteúdo audiovisual aponta ao menos seis momentos em que Tralli ou Renata corrigiram, contestaram ou apresentaram informações que contrariavam diretamente afirmações de Flávio.
O levantamento considera como “correção” não somente os casos em que os jornalistas afirmam literalmente que algo não é verdade, mas também aqueles em que mostram documentos, dados, informações oficiais ou evidências científicas incompatíveis com uma declaração factual do candidato.
Os seis momentos de confronto
1. A tentativa de golpe não foi uma “farsa”
Um dos episódios mais contundentes ocorreu quando Flávio tentou desqualificar as investigações sobre a tentativa de golpe de Estado durante o governo de Jair Bolsonaro.
O candidato classificou o processo como uma “grande farsa” e disse que teria sido criada uma “montagem” para condenar o pai e outras pessoas envolvidas.
Tralli respondeu apresentando os elementos reunidos pela investigação da Polícia Federal. Entre eles estava o documento encontrado na casa do coronel Mauro Cid, que descrevia um plano para assassinar o presidente Lula, o vice Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes.
Assim, a discussão não envolvia apenas uma divergência entre posições políticas. Havia um documento apreendido pela PF e incluído na investigação, além de depoimentos e outros elementos usados para fundamentar as condenações.
Mesmo diante das provas aceitas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio manteve a versão de que tudo seria uma armação. O material foi considerado para condenar seu pai, Jair Bolsonaro (PL), a 27 anos e 3 meses de prisão por liderar a organização criminosa que tentou promover um golpe de Estado.
2. A empresa venezuelana não fabricou as urnas
Esse foi o caso mais explícito da entrevista. Renata lembrou que Flávio já havia dito que as urnas eletrônicas brasileiras eram produzidas por uma empresa venezuelana, informação que havia sido desmentida pelo Tribunal Superior Eleitoral.
A jornalista apresentou a declaração anterior ao candidato e perguntou sobre o que ele havia afirmado. Flávio recuou: “Falei errado, ela não fabricou as urnas”.
A relevância do episódio está no fato de que não se trata de uma interpretação sobre a resposta. O próprio candidato admitiu que havia mentido.
3. Aquecimento global e a referência ao saneamento básico
Outro momento marcante ocorreu quando Renata perguntou a Flávio qual era sua posição sobre as mudanças climáticas. A questão era saber por que o aquecimento global não aparecia de forma mais clara em seu plano de governo, diante das evidências científicas sobre o tema.
Em vez de responder objetivamente se reconhecia a existência do aquecimento global e a participação humana nesse processo, Flávio levou a resposta para assuntos como saneamento básico, esgoto, lixões e eventos climáticos extremos. Renata retomou a questão: “Então, deixa eu só entender, então, o senhor acha que não tem aquecimento global? Não existe?”
Depois de Flávio mencionar os ciclos climáticos, a jornalista voltou a confrontá-lo, perguntando se aquela posição não significaria negar as evidências científicas.
Nesse caso, a discussão não se resume a opiniões divergentes. A existência do aquecimento global e a influência humana sobre o clima são questões científicas apoiadas por evidências acumuladas.
4. A carta a Trump e o tarifaço
O quarto episódio tratou do tarifaço aplicado pelo governo de Donald Trump ao Brasil. Flávio tentou apresentar sua atuação nos Estados Unidos como uma iniciativa voltada a cancelar as tarifas e proteger empresas brasileiras.
Renata, porém, utilizou o documento apresentado pelo próprio candidato para apontar uma diferença central. A carta não solicitava o encerramento da investigação nem o cancelamento imediato da medida. O pedido era para adiar sua implementação.
A jornalista afirmou: “Na carta (…) não se pede (…) que se encerre a investigação. Pede-se adiar a implementação da medida”. Ela também disse que a investigação citada no documento já havia sido concluída.
Flávio procurou manter sua interpretação, mas o conteúdo do documento mostrado por Renata contrariava a descrição que ele havia feito sobre sua atuação.
5. A prestação de contas do filme “Dark Horse”
O primeiro grande trecho da entrevista abordou a relação de Flávio com Daniel Vorcaro e o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro.
Flávio declarou que a prestação de contas do projeto havia sido realizada e que os dados eram públicos.
Tralli apresentou um contraponto: o perito contratado para examinar as informações não havia conseguido acessar o fundo americano e não esclarecera completamente a origem e o destino dos recursos.
Portanto, a questão não era apenas verificar se existia algum documento publicado, mas saber se o material disponível era suficiente para explicar a origem e o percurso dos R$ 61 milhões relacionados ao financiamento.
A discussão ocorreu no momento em que Flávio tentava encerrar o assunto como se a prestação de contas estivesse totalmente esclarecida. O candidato também se recusou a apresentar o suposto “contrato” com Daniel Vorcaro, que havia prometido entregar no dia 19 de maio.
6. Adriano da Nóbrega já era alvo de acusações
O sexto episódio envolveu Adriano da Nóbrega, apontado como líder do Escritório do Crime, braço de extermínio da milícia de Rio das Pedras. Ele foi morto em 2020.
Ao ser questionado sobre a homenagem concedida a Adriano, Flávio afirmou que, naquele período, ele era considerado um policial de destaque e que não havia feito absolutamente nada de errado.
Renata contrapôs essa versão com a informação de que Adriano já estava preso por homicídio e era alvo de acusações graves naquele momento.
Esse ponto é relevante porque a defesa de Flávio depende da ideia de que as acusações contra Adriano teriam surgido depois da homenagem. A intervenção de Renata contestou essa sequência dos acontecimentos. A jornalista também lembrou a contratação de parentes do miliciano para cargos comissionados no gabinete de Flávio Bolsonaro, quando ele era deputado estadual no Rio de Janeiro.



