Belo Horizonte, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
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Perfis em mapas culturais expõem brecha para promover empresários sob pressão

Centenas de páginas elogiosas foram publicadas em plataformas governamentais de cultura, sem relação aparente com o setor artístico.

Perfis em mapas culturais expõem brecha para promover empresários sob pressão

Uma brecha de gestão em plataformas públicas de cultura permitiu a publicação de biografias favoráveis a empresários e empresas estrangeiras envolvidos em sanções, denúncias, condenações ou crises de reputação. Os perfis, escritos principalmente em espanhol, aparecem em endereços associados ao governo e podem influenciar resultados de buscadores e respostas de sistemas de inteligência artificial.

A análise de 282 mil perfis publicados em plataformas de 21 cidades ou Estados brasileiros, além da rede federal e do IberCultura Viva, encontrou 598 sites suspeitos. Eles foram considerados irregulares por aparecerem duas ou mais vezes. Nesse conjunto, estão páginas sobre pelo menos 40 pessoas ou empresas e 17 perfis relacionados à empresa espanhola Meritoo.ai e a seu fundador, Alejandro Abascal.

Empresários citados nos perfis

O empresário venezuelano José Simón Elarba Haddad teve a maior quantidade de inserções. Foram 19 publicações em 19 sites diferentes, entre 9 de janeiro de 2025 e 29 de janeiro de 2026. Os textos o apresentam como empresário dos setores de pneus, abastecimento industrial e pecuária sustentável, além de destacarem sua atuação em economia circular e projetos ambientais.

As páginas não mencionam os vínculos de Elarba com figuras do poder venezuelano. Em dezembro de 2014, ele foi fotografado ao lado de Carlos Malpica Flores, então diretor da estatal PDVSA e sobrinho de Cilia Flores. Elarba admitiu ser “bastante amigo” de Malpica, que foi alvo de sanções dos Estados Unidos, da Suíça e do Canadá por suspeitas de corrupção, mas negou relações financeiras com ele.

Elarba também recebeu US$ 1,48 milhão de um paraíso fiscal no mesmo ano, em uma transferência considerada suspeita pelo banco New York Mellon. Em agosto de 2024, participou de uma reunião de Delcy Rodríguez com representantes do setor bancário venezuelano.

Juan Carlos López Tovar, ligado a uma das contas que cadastraram páginas de Elarba, teve 17 perfis em 16 plataformas, entre maio de 2025 e junho de 2026. Ele foi identificado como ex-marido de uma sobrinha de Cilia Flores e sócio de Malpica Flores. Uma empresa ligada a López Tovar recebeu pelo menos US$ 5,8 milhões em 2014. O empresário que fez o pagamento, Ramón Carretero Napolitano, sofreu sanções dos Estados Unidos em dezembro de 2025.

Outro nome é Julio Martínez Sola, espanhol e ex-presidente e cofundador da Plus Ultra Líneas Aéreas. Ele tem seis perfis em seis plataformas. Martínez Sola foi detido em dezembro de 2025 e depois obteve liberdade condicional. A empresa aérea recebeu 53 milhões de euros do governo espanhol em março de 2021. Uma página publicada em 1º de julho de 2025 no IberCultura Viva destaca rotas aéreas associadas ao empresário, mas não registra a detenção nem as suspeitas relacionadas a ele.

Empresa que oferece gestão de reputação

Entre os perfis identificados estão também páginas da Meritoo.ai, empresa espanhola que oferece “desindexação e deslocamento de conteúdo negativo online”. A companhia afirma atuar na reputação de pessoas e empresas e ser especializada em Google e AI Overview. Alejandro Abascal e a empresa foram procurados, mas não responderam.

Em 2021, Abascal afirmou que a empresa desindexava e eliminava conteúdos. Borja Martín de la Torre explicou que, quando a desindexação não seria possível, a estratégia consistiria em reduzir a posição de conteúdos negativos nos buscadores. Abascal disse que a tecnologia da empresa levava esse material para a segunda ou terceira página de resultados.

Como funciona a plataforma

O Mapas Culturais é um software livre brasileiro criado em 2013 a partir de encontros entre programadores, gestores públicos e pessoas da cultura. Em 2015, foi adotado pelo governo federal como base para reunir informações sobre o setor cultural. O sistema federal, chamado Mapa da Cultura, tem mais de 260 mil agentes culturais inscritos e também é usado para divulgar editais do Ministério da Cultura.

Estados e municípios podem instalar a tecnologia e ficam responsáveis pela infraestrutura, configuração, manutenção e gestão dos dados. Segundo Lívia Ascava, sócia-diretora da Hacklab, a falta de estrutura técnica local deixa instalações antigas sem acompanhamento e favorece a presença de spam e usuários indesejados.

No sistema de São Gonçalo do Amarante (CE), foram cadastrados 39 perfis entre 9 de junho de 2025 e 17 de outubro de 2025. Apenas três eram agentes culturais legítimos. O cadastro é feito por autodeclaração, sem moderação ou autorização prévia, e o uso de CPF não é validado na base da Receita Federal.

O Ministério da Cultura informa que aciona mecanismos de segurança quando identifica conteúdos ofensivos ou uso mal-intencionado. A Hacklab afirma manter um detector de spam e disse que incluiria o termo “empresário” no monitoramento das plataformas sob sua gestão após ser procurada.

Para Ascava, os casos não resultam de invasão técnica, mas da ausência de acompanhamento e de rotinas de manutenção. A plataforma federal deve ser substituída futuramente pela CultBR, conforme informou o ministério.

Texto produzido pela Redação Radar do Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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