A ficção científica brasileira produziu, entre os anos 1960 e 1970, filmes que recorreram à espionagem, à tecnologia e a futuros autoritários para tratar de dependência externa, soberania nacional e fragilidade institucional. A leitura é de Alfredo Suppia, que revisita obras realizadas durante a ditadura militar e identifica nelas formas indiretas de abordar conflitos políticos em um período de censura.
Mensagens subliminares e controle da comunicação
Um dos exemplos centrais é O Quinto Poder, dirigido pelo italiano Alberto Pieralisi em 1962, com roteiro de Carlos Pedregal e produção da Pedregal Filmes. A história apresenta uma potência estrangeira interessada em controlar o Brasil por meio de mensagens subliminares transmitidas clandestinamente pelas redes de rádio e televisão. A manipulação da comunicação levaria a população à violência e ao apoio a uma revolução sem sentido.
O filme se relaciona ao imaginário criado em torno de um experimento conduzido por James Vicary nos Estados Unidos durante sessões de Férias de Amor, de Joshua Logan, exibidas no Fort Lee Theater, em Nova Jersey. Segundo a narrativa associada ao episódio, anúncios com as frases “coma pipocas” e “beba Coca-Cola” teriam sido projetados 12 vezes por minuto, em imagens com duração inferior a três milésimos de segundo. Reedições mais rigorosas colocaram em dúvida a tese da propaganda subliminar.
Para Suppia, a obra ganhou novas possibilidades de interpretação quando suas antenas de rádio e televisão são comparadas, no plano analítico, às redes sociais e à chamada guerra híbrida. O filme também tem cenas no bondinho do Pão de Açúcar e um desfecho no Corcovado, diante do Cristo Redentor.
Outras visões de um país sob pressão
A análise inclui O Homem que Comprou o Mundo, de Eduardo Coutinho, lançado em 1968. O longa acompanha um homem comum envolvido contra a própria vontade em uma trama internacional ambientada na Guerra Fria, combinando espionagem, ficção científica e comédia.
Outro título destacado é Manhã Cinzenta, curta-metragem de Olney São Paulo lançado em 1969. A obra retrata um futuro próximo em que a ditadura militar utiliza robôs e inteligência artificial para julgar e reprimir jovens rebelados. A trajetória do filme inclui a prisão de seu realizador.
Também são mencionados Parada 88: O Limite de Alerta, de José de Anchieta, lançado em 1978, e Abrigo Nuclear, de Roberto Pires, de 1981. Essas produções empregam elementos da ficção científica para abordar temas que não poderiam ser expostos diretamente.
Um barômetro das tensões nacionais
A interpretação proposta não afirma que os cineastas tenham previsto a conjuntura de 2026. A ideia é que essas obras funcionem como um barômetro das inquietações brasileiras diante da modernização, da emancipação, da dependência externa e da instabilidade das instituições.
Nesse conjunto, O Quinto Poder é apresentado como um filme que, em noventa minutos, articula propaganda, interferência estrangeira e disputa pelo controle do país. Para Suppia, revisitar esses títulos permite observar como o cinema brasileiro encontrou na ficção científica uma linguagem para representar conflitos políticos e sociais de diferentes períodos.



