Eduardo Paes (PSD) ainda lidera a corrida pelo governo do Rio de Janeiro, mas perdeu parte da vantagem que chegou a indicar uma possível vitória no primeiro turno. Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira, 24, mostra o ex-prefeito com 43% das intenções de voto, contra 30% do deputado estadual Douglas Ruas (PL). Anthony Garotinho (Republicanos) aparece com 8%.
A distância entre Paes e Ruas caiu de 18 para 13 pontos. O candidato do PSD manteve o percentual registrado em 11 de setembro, enquanto Ruas avançou de 25% para 30%. Em uma simulação de segundo turno, Paes tem 54% e Ruas, 38%. Nesse cenário, a vantagem do ex-prefeito passou de 20 para 16 pontos.
Por que Paes mantém força
A cientista política Mayra Goulart, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), atribui a resistência eleitoral de Paes a três fatores principais: a trajetória construída ao longo de diferentes eleições, o peso da capital e o alto nível de conhecimento de seu nome entre os eleitores.
Paes foi prefeito do Rio de 2009 a 2016, disputou o governo do Estado, perdeu e depois voltou à prefeitura, onde foi reeleito. Para Mayra, esse percurso permitiu que ele desenvolvesse uma base própria, sem depender diretamente da polarização entre os principais grupos políticos nacionais.
A passagem pela Prefeitura do Rio também ampliou sua identificação com a capital. O município é o segundo maior colégio eleitoral do País e concentra 40% dos votos do estado do Rio de Janeiro. Com isso, um candidato amplamente conhecido na cidade começa a disputa estadual com uma base relevante. A candidatura anterior ao governo ajudou a tornar o nome de Paes mais conhecido em outras regiões.
Avanço de Ruas e papel de Garotinho
Na avaliação de Mayra, o crescimento de Ruas está ligado à definição gradual do eleitorado de direita sobre o candidato que representará esse campo político. A estrutura do PL no Estado também favorece o deputado, que tem o apoio da legenda fluminense e é filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson.
São Gonçalo é o segundo maior colégio eleitoral do Rio. Além da base no município, Ruas conta com a presença do PL no Legislativo e nas prefeituras, o que dá à campanha uma estrutura territorial.
Garotinho alterou a dinâmica da eleição ao atrair parte dos eleitores e romper parcialmente a polarização entre Paes e Ruas. Ao mesmo tempo, a situação jurídica do ex-governador produz incerteza entre seus apoiadores e pode interferir diretamente no resultado.
A candidatura de Garotinho foi indeferida por unanimidade pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) em 11 de setembro. A Corte informou que ele está com os direitos políticos suspensos por oito anos, em razão de uma condenação definitiva por improbidade administrativa. O processo trata do desvio de recursos da Saúde ocorrido quando Garotinho era secretário de Governo durante a gestão de Rosinha Garotinho, sua mulher e ex-governadora.
A defesa contesta a decisão e sustenta que o período de suspensão já foi cumprido. Enquanto tenta reverter o indeferimento, Garotinho permanece na campanha. O primeiro recurso apresentado por seus advogados, os embargos de declaração, ainda aguarda julgamento no próprio TRE-RJ. Em caso de rejeição, a defesa poderá recorrer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Supremo Tribunal Federal (STF).
Até uma decisão definitiva, Garotinho pode concorrer sub judice por força de uma liminar da Justiça. Se a inelegibilidade for confirmada depois, os votos recebidos por ele serão anulados. Nesse caso, Paes poderá alcançar o percentual necessário para encerrar a eleição no primeiro turno, em 4 de outubro.
Crise no PL do Rio
Mayra também relaciona as dificuldades de Ruas à crise enfrentada pelo PL e por aliados no Rio de Janeiro. O campo político ligado ao partido é alvo de investigações sobre lavagem de dinheiro, emendas parlamentares e possíveis relações entre políticos e organizações criminosas.
Cláudio Castro (PL) abandonou a pré-candidatura ao Senado depois de ser alvo de duas operações da Polícia Federal. As apurações examinam suspeitas sobre os vínculos do ex-governador com o empresário Ricardo Magro, do grupo Refit, e com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Castro nega irregularidades.
Outra investigação alcançou o entorno de Flávio Bolsonaro. A Polícia Federal identificou conversas entre uma assessora do senador e Robson Calixto, conhecido como Peixe e condenado pelo Supremo Tribunal Federal por envolvimento no assassinato de Marielle Franco. Segundo a PF, os dois trataram da liberação de R$ 199 mil em emendas para um projeto de futebol no Rio. A corporação vê indícios de desvio e aponta proximidade entre Calixto e o gabinete do senador. Flávio afirma que os repasses seguiram a lei e critérios técnicos.
Para a cientista política, esse conjunto de episódios prejudica a capacidade do PL de sustentar sua principal bandeira no Estado, a segurança pública, e reduz a força de mobilização do partido. Como exemplo, ela menciona a ausência de uma manifestação da legenda no Rio no 7 de setembro deste ano. Em 2022, uma manifestação em Copacabana reuniu 64.000 pessoas.
A pesquisa ouviu 1.204 eleitores entre 22 e 24 de setembro. A margem de erro é de três pontos percentuais, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado na Justiça Eleitoral sob o número RJ-02205/2026.



