SÃO PAULO — O lodo gerado por estações de tratamento de esgoto passou a ser usado como matéria-prima para biofertilizantes, em vez de seguir exclusivamente para aterros sanitários. A alta concentração de matéria orgânica e nutrientes tornou o resíduo uma alternativa para a fertilização do solo, especialmente em um cenário de dificuldades para importar fertilizantes.
Dados do Ministério da Agricultura mostram que, entre 2019 e junho de 2026, o Brasil registrou 33 biofertilizantes desenvolvidos por 17 empresas. O ministério não informou quantos desses produtos são feitos a partir de lodo.
A Embrapa e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) documentam benefícios agronômicos dos biofertilizantes, como maior disponibilidade de nutrientes, melhora da atividade microbiológica e redução parcial do uso de fertilizantes sintéticos. Especialistas também avaliam que esses produtos podem complementar ou substituir parte da adubação química.
Cristiano Andrade, pesquisador da Embrapa Meio Ambiente, afirma que produtos orgânicos podem substituir até 100% da adubação mineral nitrogenada. Ele ressalva, porém, que nem todo lodo de esgoto é uma boa fonte de potássio. Sobre o fósforo, Andrade diz que o efeito não é imediato, mas que aplicações sucessivas na mesma área aumentam gradualmente a disponibilidade do nutriente no solo e podem gerar economia na adubação fosfatada no médio e longo prazo.
Empresas testam aplicações agrícolas
A Tera Ambiental produz biofertilizante a partir de lodo e afirma que o produto permite reduzir em 30% a adubação mineral com a aplicação de cerca de 5 toneladas por hectare. Segundo Lívia Baldo, diretora da empresa, o uso contínuo eleva a fertilidade do solo e pode aproximar essa redução de 50%, principalmente nas necessidades de nitrogênio e fósforo.
A companhia mantém parceria com a Orizon, responsável pela administração do aterro sanitário de Paulínia (SP), onde funciona um ecoparque. Nesse local, são produzidas 1.600 toneladas de fertilizantes orgânicos por mês. A Tera também administra efluentes destinados à Companhia de Saneamento de Jundiaí (CSJ) e recebe lodo de outras estações de tratamento da região, além de resíduos industriais.
Por meio da Tera Nutrição Vegetal, a empresa vende adubo orgânico para agricultura e paisagismo. O produto é usado em cultivos de cana, café, citros, frutas e hortaliças. A companhia também realizou testes com tomate, banana, macadâmia, soja e milho, com resultados de ganho de produtividade e melhora da qualidade, segundo Baldo. A empresa afirma usar matérias-primas que atendem aos critérios técnicos e ambientais previstos na legislação, com foco em lodos de estações de tratamento de esgoto e outros resíduos orgânicos licenciados.
A Quattro T, empresa catarinense especializada em gestão de resíduos industriais, aposta no aproveitamento do lodo dentro das próprias cadeias agroindustriais. Em um trabalho para uma agroindústria paranaense, a companhia desassoreou uma lagoa de decantação de 11.500 metros e reduziu em 61% a produção de lodo em poucos dias.
O biossólido produzido com o resíduo passou a ser usado na adubação de uma área agrícola próxima à lagoa, substituindo fertilizantes que antes eram comprados. Eduardo Rotta Lovato, diretor de operações da Quattro T, afirma que o material deixou de representar um custo de transporte e disposição em aterro e passou a gerar economia.
A empresa utilizou dragagem hidráulica combinada com geoformas, bolsas de tecido que separam a água dos sólidos. O processo recuperou 8.886 metros cúbicos de água e evitou a emissão de 1.352 toneladas de gás carbônico equivalente.
Projetos de saneamento
A Veolia iniciou em Blumenau (SC) um projeto de pequena escala para transformar lodo em biofertilizantes. Gustavo Lara, gerente-executivo de Desenvolvimento de Negócios de Águas e Saneamento da empresa no Brasil, afirma: “Queremos deixar essas soluções preparadas no Brasil para atender a demanda que vai aparecer aqui”.
A companhia já opera uma biofábrica em Santiago, no Chile, que transforma lodo de esgoto em biofertilizantes por meio de sua participação na concessionária Águas Andinas. A operação levou à criação de uma empresa separada para ensacar, comercializar e distribuir o produto no mercado agrícola local.
Na avaliação de Lara, a experiência chilena pode servir de referência para o Brasil, dependendo da pressão regulatória e do custo de disposição do lodo em aterros.
O reaproveitamento também entrou nos projetos da Iguá Saneamento. O programa Move Iguá Inova selecionou 13 iniciativas propostas por funcionários de diferentes áreas; três delas tratam do lodo, com soluções de secagem acelerada, tratamento térmico e redução do volume gerado nas estações.
Paula Violante, diretora de Operações da Iguá, diz que o reaproveitamento precisa considerar cada realidade operacional e regulatória. “A inovação no saneamento não está restrita à digitalização ou à automação”, afirma.



