A restauração florestal ganhou ritmo no Brasil com o aumento da procura por mudas, novas operações de financiamento e negociações de créditos de remoção de carbono. A cadeia, porém, ainda enfrenta falta de coordenação, dificuldade de acesso ao crédito e baixo nível de conhecimento formal sobre a atividade.
Em pouco mais de dois anos, o BNDES viabilizou a movimentação de R$ 14,6 bilhões para o setor, por meio de financiamentos e aportes em fundos voltados ao reflorestamento. Segundo Tereza Campello, diretora socioambiental do banco, os recursos também contribuem para ampliar viveiros e formar mão de obra.
Do total, R$ 8,9 bilhões vieram de financiamentos com recursos do Fundo Clima, do Fundo Amazônia e do próprio BNDES. A estimativa é que essas operações permitam reflorestar 212 mil hectares e retirar 68 milhões de toneladas de carbono da atmosfera. Outros R$ 5,9 bilhões estão sendo aplicados em conjunto com fundos privados, incluindo R$ 1,3 bilhão em capital catalítico do banco.
Meta de restauração exige expansão da cadeia
O Brasil tem pouco mais de três anos para cumprir a meta de recuperar 12 milhões de hectares prevista em seus compromissos da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC). Dados compilados pela Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura mostram que, de 2015 até novembro de 2025, as ações de restauração haviam alcançado 204 mil hectares.
Para Tereza Campello, a restauração de florestas nativas pode se consolidar como uma nova atividade econômica no país. Há demanda internacional por créditos de carbono ligados ao restauro, especialmente de florestas nativas, além de madeira certificada e, futuramente, créditos de biodiversidade.
O BNDES também avalia que o segmento pode alcançar relevância semelhante à de setores como papel e celulose. A diretora afirma que parte dos obstáculos já começou a ser enfrentada, especialmente na oferta de mudas.
Viveiros relatam descompasso entre oferta e demanda
A Fazenda Anauá, em Caravelas (BA), dobrou a capacidade de produção no ano passado após identificar o crescimento da procura. Na Nativas Brasil, associação criada há cinco anos e que reúne 150 associados, o presidente Rodrigo Ciriello relata que algumas regiões já registram falta de mudas.
O aumento da demanda não eliminou a ociosidade. Levantamento da entidade feito no ano passado apontou que os viveiros trabalhavam com 50% de capacidade ociosa. Mesmo entre as mudas produzidas dentro da capacidade disponível, parte não é vendida por falta de sincronia entre a produção e os pedidos.
O planejamento é dificultado pelo ciclo da restauração de espécies nativas. A produção depende da coleta de sementes e varia conforme as chuvas e a frutificação das árvores. “É preciso planejamento”, disse Ciriello.
O crédito é outro obstáculo. Os viveiros precisam antecipar gastos com substrato, adubo, tubetes, mão de obra, energia elétrica e, em alguns casos, água. Segundo Ciriello, o acesso ao Plano Safra e a linhas tradicionalmente oferecidas ao agronegócio é mais difícil, enquanto empresas e gerentes de banco ainda têm pouco conhecimento sobre as opções disponíveis.
Atualmente, os viveiros de mudas nativas conseguem entregar 300 milhões de unidades por ano. Para atender a pelo menos 30% da necessidade associada à meta da NDC, a capacidade teria de chegar a 1,25 bilhão de mudas anuais. “Estamos longe de conseguir bater a meta”, afirmou Ciriello.



