A Antártica perderá mais gelo do que ganhará neste século, mesmo em um cenário no qual o aquecimento global seja limitado a 1,5 grau Celsius, meta mais ambiciosa do Acordo de Paris sobre o clima de 2015. A conclusão está em um estudo publicado na revista Nature Geoscience, que avaliou centenas de milhares de futuros possíveis para o manto de gelo do continente.
O resultado indica que a Antártica deverá contribuir mais para a elevação do nível do mar. O continente reúne gelo suficiente para elevar o nível global dos oceanos em cerca de 58 metros. Atualmente, cerca de 1 bilhão de pessoas vivem em áreas costeiras, e aproximadamente 100 milhões estão a menos de 1 metro acima do nível do mar.
Como os cenários foram avaliados
A projeção do comportamento do gelo depende de uma sequência de processos. As emissões de gases de efeito estufa influenciam o aquecimento do oceano e do ar ao redor da Antártica. Esse aquecimento afeta as plataformas de gelo nas margens do continente e a velocidade com que as geleiras deslizam sobre o leito rochoso. Quando as plataformas ficam mais finas ou desmoronam, o fluxo das geleiras pode acelerar.
A neve adicional também interfere nas projeções. Como o ar mais quente retém mais umidade, o aumento das temperaturas pode elevar a quantidade de neve na Antártica. Em alguns cenários, esse acréscimo compensaria o gelo perdido para o oceano. As diferentes hipóteses sobre esses processos, porém, geram uma cadeia de incertezas.
Para ampliar a quantidade de combinações analisadas, os pesquisadores treinaram um modelo de aprendizado de máquina baseado em física com simulações do Projeto de Intercomparação de Modelos de Camadas de Gelo, conhecido como ISMIP6. O modelo conseguiu reproduzir, em uma fração de segundo, cálculos que levavam dias nos modelos originais.
A equipe comparou milhões de combinações com dados de satélites que medem a massa de gelo a partir do espaço. Foram considerados os cenários compatíveis com as observações feitas desde 2002. Esses cenários apontaram que a perda de gelo deve superar o ganho neste século, inclusive no limite de 1,5°C.
Impactos projetados e limites do estudo
Em um cenário de emissões muito altas, o aquecimento acelerado do oceano pode afinar as plataformas de gelo e favorecer sua fragmentação. Com isso, o gelo das geleiras chegaria mais rapidamente ao oceano. A combinação desses processos poderia provocar uma elevação de até 25 centímetros no nível do mar causada apenas pela Antártica até 2100, com potencial para inundar permanentemente as casas de mais de 10 milhões de pessoas.
Os pesquisadores identificaram três grupos de suposições especialmente importantes para as projeções: a resposta das plataformas de gelo ao aquecimento do oceano, o deslizamento do gelo sobre o leito rochoso e a velocidade do aquecimento do oceano e do ar na região.
O modelo ainda não inclui alguns processos, como a formação de rachaduras e a quebra do gelo, além das mudanças em rios e lagos sob o manto de gelo. Esses fatores podem alterar a estimativa sobre a velocidade com que o gelo chega ao mar e o tempo disponível para a adaptação das comunidades costeiras.
O estudo conclui que a redução das emissões continua relevante. Cada tonelada de gás de efeito estufa que deixar de ser emitida pode reduzir a quantidade de gelo perdida pela Antártica neste século, com efeito sobre o ritmo e a intensidade da elevação do nível do mar ao longo de centenas de anos.



