Um cheiro associado a experiências positivas pode continuar influenciando o comportamento muitos anos depois de ser sentido pela primeira vez. É o que indica um estudo publicado na revista PLOS Biology, que investigou como o cérebro preserva e reativa memórias olfativas da infância.
A pesquisa foi conduzida por cientistas franceses durante cerca de quatro anos. Na primeira etapa, 640 voluntários responderam a um questionário. As lembranças relacionadas a odores apareceram, em geral, acompanhadas de emoções agradáveis. Os pesquisadores também observaram que a consolidação dessas memórias estava ligada à repetição da experiência.
O papel da exposição periódica
Para testar os resultados, a equipe criou um modelo experimental com camundongos. Os animais foram ensinados a associar um odor agradável a um ambiente com brinquedos, rodas de corrida, outros camundongos e acesso livre à comida. As vocalizações registradas pelos pesquisadores indicavam satisfação.
O procedimento foi realizado com animais de 2 a 3 meses e com outros de seis meses. Os mais velhos já haviam deixado de reconhecer o cheiro. A equipe, então, reproduziu nos camundongos uma frequência de contato observada nos relatos humanos: cerca de uma vez por ano.
Nathalie Mandairon, neurobiologista francesa e uma das autoras, explicou que uma exposição excessiva poderia vincular o odor a novas experiências, enquanto uma frequência baixa demais favoreceria o esquecimento. Com pequenas exposições periódicas, os animais de 6 meses mantiveram a memória do cheiro.
Da olfação às emoções
O experimento mostrou que, nos animais mais velhos, a lembrança já não dependia principalmente do bulbo olfatório, estrutura que funciona como uma estação inicial de retransmissão da informação olfativa. O circuito do sistema límbico, relacionado ao processamento das emoções, passou a ter maior participação.
Ainda assim, o bulbo olfatório teve papel importante na formação da memória. A pesquisa destacou a atuação das células granulares, neurônios que continuam surgindo nos dias seguintes ao parto e permanecem em um período de grande plasticidade quando os odores são decodificados pelo cérebro.
A atividade dessas células também foi necessária para que os animais mantivessem a preferência pelo cheiro associado à infância. Quando os pesquisadores inibiram esses neurônios, os camundongos deixaram de demonstrar essa preferência.
Segundo Mandairon, o bulbo olfatório se conecta aos circuitos cerebrais da memória e da recompensa, ajudando a reativar experiências passadas. Com o tempo, a recordação passa a mobilizar mais intensamente o sistema límbico, o que contribui para as emoções e a nostalgia associadas aos odores da infância.
A pesquisadora agora investiga por que apenas alguns dos muitos cheiros experimentados na infância são arquivados na memória e quais características eles têm em comum.



