Belo Horizonte, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
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IA no SUS enfrenta limites de dados, infraestrutura e capacidade de atendimento

Planos de candidatos propõem inteligência artificial para filas, diagnósticos e agendamentos, mas especialistas apontam riscos e obstáculos.

IA no SUS enfrenta limites de dados, infraestrutura e capacidade de atendimento
Foto: Danilo Martins Yoshioka/Anadolu via Getty Images/BBC News Brasil

A inteligência artificial aparece nos planos de governo de candidatos de diferentes correntes políticas para uso no Sistema Único de Saúde (SUS). As propostas incluem triagem por risco clínico, agendamento de consultas e exames, apoio a diagnósticos e prevenção. Especialistas, porém, afirmam que a adoção da tecnologia depende de dados integrados, capacidade de atendimento, validação e mecanismos de controle.

Luiz Inácio Lula da Silva propõe uma fila única digital, ordenada pelo risco clínico, além do aprimoramento da regulação do acesso à atenção especializada. Flávio Bolsonaro prevê o uso de IA para agilizar consultas e exames e identificar pessoas com maior risco de adoecer. Renan Santos sugere substituir a fila cronológica e cita a plataforma DoctorSV, de El Salvador, como referência.

Para Alexandre Chiavegatto Filho, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), a tecnologia pode ser usada desde o primeiro contato do paciente com o sistema até a alta. Algoritmos preditivos poderiam apoiar diagnósticos e ampliar o acesso a especialistas em regiões onde eles são escassos.

Wagner Meira Jr., professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), considera algumas propostas futuristas e afirma que dificilmente seriam realizadas em quatro anos de governo. Segundo ele, reorganizar a fila não resolve a limitação de profissionais e serviços disponíveis. “Se você simplesmente mudar a posição das pessoas e continuar com a mesma restrição de capacidade, não vai melhorar muita coisa.”

Dados e decisões clínicas

O Ministério da Saúde informa que não existe um número nacional consolidado de pessoas aguardando atendimento no SUS. Estados e municípios administram as filas de cirurgias, consultas e exames. Uma portaria publicada em 2025 passou a exigir o envio periódico e padronizado dessas informações à Rede Nacional de Dados em Saúde, mas a medida ainda está em implementação.

O Sisreg é a única fonte de dados disponível atualmente para o Ministério, mas não é usado por todos os municípios. Para Meira Jr., a falta de informações completas pode produzir falsos negativos, quando um paciente que precisava de atendimento deixa de ser identificado.

O pesquisador considera mais imediatas as aplicações administrativas, como localizar profissionais disponíveis, distribuir consultas e aproveitar estruturas ociosas. Já decisões clínicas exigem auditoria, rastreabilidade, preparação dos médicos e definição de responsabilidades quando houver erro.

Antonio Ribeiro, cardiologista da UFMG e coordenador da Rede de Teleassistência de Minas Gerais, afirma que critérios de risco já são usados no SUS, inclusive em transplantes. Para ele, o principal obstáculo está na fragmentação dos sistemas e na falta de informações integradas e padronizadas.

Ribeiro defende projetos específicos, como um modelo desenvolvido na UFMG para priorizar exames de ecocardiograma com base em informações de eletrocardiogramas. Antes de ser incorporada à assistência, uma ferramenta precisa demonstrar, em estudos de validação prospectiva, que é efetiva, factível e custo-efetiva. “Isso está longe de ser uma panaceia ou uma solução pronta para resolver todos os problemas no curto prazo”, afirma.

A experiência de El Salvador

Em El Salvador, o governo de Nayib Bukele lançou o DoctorSV em novembro de 2025. A plataforma administra consultas, sugere diagnósticos, tratamentos e exames laboratoriais e pode alertar pacientes com doenças crônicas sobre o uso de medicamentos. O sistema utiliza tecnologia do Google Cloud.

O governo informa que o aplicativo foi baixado por 1,1 milhão de pessoas e que havia gerado cerca de 1,5 milhão de consultas médicas até abril deste ano. A segunda fase será financiada por um empréstimo de US$ 75 milhões do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe.

Chiavegatto questiona a aplicação de algoritmos generalistas em sistemas de saúde específicos. Para ele, modelos usados no SUS deveriam ser desenvolvidos no Brasil e treinados com dados da população de cada região. Meira Jr. também ressalta que a escala de El Salvador é diferente: o país tem 6,4 milhões de habitantes e realiza cerca de 10,5 milhões de atendimentos por ano, enquanto o sistema público brasileiro registra 2,8 bilhões de atendimentos anuais.

Os pesquisadores ainda apontam preocupações sobre soberania e proteção de dados. O contrato de El Salvador com o Google terá duração de sete anos, mas não estão esclarecidos os termos sobre o uso das informações dos pacientes. Ribeiro afirma que dados de saúde podem permitir identificação e discriminação e, por isso, precisam ser protegidos contra acesso não autorizado.

Texto produzido pela Redação Radar do Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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