MOSCOU — A Rússia acelera a implantação da Rassvet, rede de internet via satélite desenvolvida pela empresa aeroespacial Bureau 1440. O projeto ganhou importância militar depois que o país perdeu acesso aos terminais da Starlink usados no conflito na Ucrânia.
A rede russa já conta com 31 satélites. No final de março, foram colocados em órbita os primeiros 16 equipamentos de banda larga, com capacidade de conexão de até 1 gigabite por segundo. A meta é chegar a 292 satélites em operação até 2027.
Limitações técnicas
O astrofísico e historiador espacial Jonathan McDowell afirma que a capacidade atual da Rassvet é inferior à dos principais sistemas concorrentes. A geração atual da Starlink alcança cerca de 100 gigabits por segundo, enquanto a próxima deverá atingir dez vezes esse volume. A OneWeb, disponível na Europa, chega a cerca de 10 gigabits por segundo.
A primeira leva de satélites lançada em março atingiu a altitude prevista, segundo o Instituto para o Estudo da Guerra. Um segundo lançamento, realizado em julho, ficou abaixo do esperado e alcançou entre 300 e 400 quilômetros de altitude. Satélites em órbitas mais altas cobrem áreas maiores, o que influencia a continuidade do serviço.
O diretor de defesa e segurança do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, Clayton Swope, avalia que alguns equipamentos apresentaram falhas completas e não chegaram às órbitas esperadas. Para ele, a rede oferece atualmente apenas períodos curtos e intermitentes de cobertura sobre a Ucrânia.
Além dos satélites, a Rússia precisa fabricar terminais em larga escala e estabelecer estruturas de controle operacional em terra capazes de resistir a ataques ucranianos.
Uso militar e reação ucraniana
A Starlink é formada por milhares de satélites em órbita baixa da Terra. Terminais instalados no solo permitem conexão em áreas onde torres de telefonia foram destruídas, cabos de fibra óptica foram cortados ou tropas atuam em regiões remotas. A transmissão de vídeos de drones e outros grandes volumes de dados depende de conectividade estável, já que interrupções de poucos segundos podem afetar uma operação.
Embora a Rassvet esteja distante da capacidade da Starlink, McDowell afirma que uma infraestrutura menos avançada ainda pode servir às comunicações militares e à coordenação de drones.
Vadym Skibitsky, vice-chefe da inteligência militar da Ucrânia, disse que os lançamentos russos começaram mais rapidamente do que o previsto. Ele afirmou que o sistema ainda opera de forma intermitente, mas poderá funcionar de maneira semelhante à Starlink quando a constelação estiver completa. Segundo Skibitsky, autoridades ucranianas já discutem formas de neutralizar a rede.
Disputa por redes soberanas
A guerra na Ucrânia ampliou a preocupação de governos com a dependência da infraestrutura de uma única empresa privada em situações de conflito. A China desenvolve megaconstelações próprias, a União Europeia investe no projeto Iris² e a Amazon trabalha no Projeto Kuiper, concorrente da Starlink.
Para Swope, a dependência global da SpaceX permanece elevada tanto nos lançamentos espaciais quanto na conectividade. A expansão da Rassvet, do Iris² e do Kuiper indica uma disputa pelo controle das comunicações globais e das capacidades militares associadas às redes de satélites.



