RIO DE JANEIRO — A parceria entre Antônio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes nasceu de uma combinação de teatro, música e articulação profissional. Em 25 de setembro de 1956, a estreia de Orfeu da Conceição, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, apresentou ao público uma peça com texto do poeta e diplomata e música do pianista que ainda trabalhava em casas noturnas cariocas.
A aproximação foi feita por Lúcio Rangel, diretor da Revista da Música Popular. Vinicius procurava um músico para o projeto, e Rangel apresentou Jobim ao poeta. A colaboração iniciada naquele momento se estenderia por décadas e formaria parte central do repertório associado à bossa nova e à Música Popular Brasileira.
Um projeto financiado antes da estreia
A montagem não se limitou à criação artística. Vinicius vendeu ao produtor Sacha Gordine os direitos de adaptação do texto antes mesmo da encenação original. O dinheiro foi usado para financiar a produção teatral, em uma operação que a empresária artística Anita Carvalho compara ao que hoje se chama de pré-venda de direitos.
No mesmo ano, a gravadora Odeon lançou um LP homônimo, considerado o primeiro álbum da parceria entre Jobim e Vinicius. O disco incluía Se Todos Fossem Iguais a Você. Três anos depois, o cineasta francês Marcel Camus levou a peça ao cinema, em um filme rodado no Rio.
A produção, chamada Orfeu Negro, recebeu o prêmio de melhor filme estrangeiro no Oscar e foi premiada em Cannes. Em 1999, Cacá Diegues dirigiu outro filme baseado na obra, intitulado apenas Orfeu. A peça voltou aos palcos em 2010, sob direção de Aderbal Freire Filho.
O mito grego encontra a favela
Na dramaturgia, Vinicius transportou para o Rio de Janeiro a história de Orfeu, personagem da mitologia grega conhecido por seus talentos musicais e pela tentativa de resgatar a amada do submundo. A favela carioca tornou-se o cenário de um drama inspirado nesse mito.
A cenografia foi assinada por Oscar Niemeyer. A montagem também teve o Teatro Experimental do Negro no elenco, companhia ligada ao dramaturgo e ativista Abdias Nascimento. A presença de atores e atrizes negros em um dos principais teatros brasileiros foi apontada como um dos aspectos relevantes da produção.
Para o jornalista e crítico musical Leonardo Lichote, a peça aproximou duas frentes que buscavam espaço naquele Brasil: a modernidade de orientação intelectual e europeizada e a afirmação da negritude nas artes. “O mito grego e a favela”, resumiu.
A leitura atual da obra também identifica limites na forma como a população negra foi representada. Lichote observa que Vinicius escreveu a partir da perspectiva de um intelectual branco e que a nobreza dos personagens negros aparece associada à cultura grega. A valorização da favela e do negro convive, nessa interpretação, com uma romantização desses universos.
Da peça ao repertório da MPB
A peça usava o violão como base instrumental, enquanto a percussão ligada aos ritmos africanos aparecia associada ao caos. Para Lichote, esses elementos revelam aspectos racistas presentes na sociedade retratada, ainda que isso não permita definir Vinicius dessa maneira.
A parceria ganhou nova dimensão com Chega de Saudade, álbum lançado em 1959 por João Gilberto e considerado inaugural da bossa nova. O disco tinha duas composições de Tom e Vinicius, entre elas a faixa-título. Na avaliação de Lichote, Jobim contribuiu principalmente com os procedimentos harmônicos e melódicos, enquanto Vinicius se destacou na construção das letras.
João Gilberto completou esse processo ao dar forma ao projeto por meio do violão. A produção dos dois compositores também desembocou na MPB e influenciou artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil.
Em 1962, Jobim e Vinicius compuseram Garota de Ipanema, descrita no texto como a música brasileira mais conhecida, mais gravada e mais tocada no planeta. O músico Bruno Leo Ribeiro define a dupla como uma parceria criativa de alcance mundial, comparável à de John Lennon e Paul McCartney.
Além da criação, Anita Carvalho destaca a organização profissional da dupla. Segundo ela, Vinicius usava sua circulação como diplomata e suas redes de contato para abrir portas e viabilizar projetos. O resultado foi um catálogo que sustentou as carreiras dos dois e ajudou a projetar uma imagem de Brasil ligada à modernidade, à música e à cultura.
Para Lichote, esse repertório também colaborou para a construção de uma ideia de nação. A dupla teria projetado uma imagem diferente do país e ampliado as possibilidades da música popular brasileira.



