Alimentos ultraprocessados estão associados a obesidade, doenças cardiovasculares, diabetes e outros distúrbios metabólicos. Também são investigadas possíveis relações com problemas de saúde mental e maior risco de morte prematura. Ainda assim, cientistas, médicos e nutricionistas não chegaram a um consenso sobre o quanto desses efeitos se deve ao processamento dos alimentos ou à presença elevada de gordura, açúcar, sal e calorias.
A classificação NOVA, usada em pesquisas sobre o tema, considera tanto o grau de processamento quanto os ingredientes e aditivos empregados. Produtos ultraprocessados costumam passar por várias etapas industriais e conter substâncias pouco usadas em cozinhas domésticas, como emulsificantes, aromatizantes, corantes e adoçantes. Uma lista extensa de ingredientes, porém, não determina sozinha se um alimento é pouco saudável.
O que observar nas compras
Maeve Hanan, da Associação Britânica de Dietética, analisou uma lista de compras e afirmou que a presença de alguns ultraprocessados não significava que a alimentação fosse inadequada. Para ela, é mais importante avaliar o valor nutricional e a variedade dos alimentos, que devem abranger todos os grupos alimentares.
Hanan citou cereais e nuggets de frango como exemplos. Os nuggets podem fornecer proteína, mas geralmente têm mais gordura e sal do que um peito de frango. Por isso, devem ser consumidos com moderação e dentro de uma dieta equilibrada. Ingredientes com nomes químicos, como agentes de fermentação, são testados e aprovados pelas leis alimentares do Reino Unido.
A nutricionista também afirmou que “um único alimento não torna sua dieta saudável ou não saudável”. O equilíbrio, segundo ela, deve ser construído ao longo do tempo.
Megan Bamford conta que retirar ultraprocessados da dieta ajudou no controle da síndrome do intestino irritável e da dor crônica. Depois de se tornar mãe de duas crianças, no entanto, passou a combinar frutas, legumes, sementes e aveia com cereais matinais, batatas fritas e biscoitos. A filha Ella, de sete anos, tem dificuldades alimentares e, em determinado período, precisou consumir alimentos ultraprocessados.
Megan procura produtos com cinco ingredientes ou menos e afirma escolher as opções mais saudáveis disponíveis para os filhos.
Divergências entre especialistas
O cientista de alimentos David Julian McClements considera que a definição de ultraprocessado ainda não é precisa. Ele afirma que alguns estudos associam o maior processamento à facilidade de comer em excesso e a alterações na microbiota intestinal, mas não há evidências conclusivas de que essas alterações sejam necessariamente prejudiciais.
Para McClements, a indústria pode reformular produtos para torná-los mais saudáveis, mantendo a conveniência. Já o médico Chris van Tulleken sustenta que alimentos ultraprocessados são formulados para serem muito saborosos e consumidos com facilidade. Ele defende uma rotulagem mais clara sobre gordura, açúcar e sal.
A Federação de Alimentos e Bebidas, que representa fabricantes do Reino Unido, contesta essa avaliação. A entidade afirma ter investido milhões de libras em inovação e diz que seus membros reduziram sal, açúcar e calorias em quase um quinto nos últimos cinco anos. A federação também afirma que o trabalho segue regulamentações governamentais e orientações dietéticas baseadas no conteúdo nutricional, e não no nível de processamento.
A avaliação apresentada pelos especialistas é que o consumo de ultraprocessados não precisa ser tratado de forma isolada. A composição geral da alimentação, a frequência de consumo e o equilíbrio entre os alimentos também entram nessa análise.



