Chocolate, pizza, hambúrguer e sorvete podem fazer parte da alimentação sem culpa. O principal ponto de atenção é perceber quando comer deixa de ser apenas uma fonte de prazer e passa a ser usado quase sempre para lidar com tristeza, ansiedade, tédio, estresse ou frustração.
A nutricionista Giovana Torres, da Hapvida, explica que não há problema em buscar conforto na comida. A preocupação aparece quando esse se torna praticamente o único recurso diante de emoções difíceis. Memórias, cultura, experiências e afetos também influenciam a relação com os alimentos: um doce pode lembrar uma comemoração, enquanto uma pizza pode estar associada a momentos em família.
Fome física e vontade emocional
A fome física tende a surgir aos poucos e pode ser atendida por diferentes alimentos. Já a vontade associada às emoções costuma aparecer de forma repentina e, muitas vezes, direcionada a um item específico. A sensação de perda de controle também merece atenção.
“Comer por prazer também é legítimo. Nem toda vontade de comer precisa ser justificada pela fome física”, afirma Giovana. Para ela, o objetivo é desenvolver percepção e autonomia, sem transformar a alimentação em uma lista rígida de certo e errado.
Em períodos de estresse ou exaustão, doces e frituras podem parecer mais atraentes pela sensação de conforto que oferecem. Ainda assim, comer algo prazeroso depois de um dia difícil, isoladamente, não caracteriza um problema. O padrão de comportamento é o que deve ser observado.
Saciedade e escolhas práticas
A fome que aparece pouco depois de uma refeição pode estar relacionada à composição do que foi consumido ou ao fato de a pessoa já ter chegado àquele momento com muita fome. Refeições e lanches que reúnem proteínas, fibras, carboidratos e fontes de gordura tendem a sustentar mais do que itens consumidos sozinhos.
Uma fruta pode ser combinada com iogurte e sementes. Outras opções são pão com ovo, frango ou queijo e vegetais. Para o fim do dia, também podem funcionar combinações como iogurte com banana e aveia; banana com cacau e pasta de amendoim; maçã com iogurte e canela; tapioca com queijo e ovo; ou sanduíche com frango desfiado, queijo e tomate.
A praticidade é parte da estratégia: a escolha precisa caber na rotina. Também é importante evitar que a fome se acumule durante o dia, o que pode aumentar a chance de chegar à noite com fome exagerada.
Prazer sem proibição
A proposta não é transformar chocolate, pizza, hambúrguer ou sorvete em inimigos. No chocolate, por exemplo, é possível escolher uma versão agradável ao paladar, observar a quantidade e, se fizer sentido, preferir uma opção com mais cacau. Para a pizza, ingredientes como frango, atum, queijo e vegetais podem ser combinados de diferentes maneiras para formar uma refeição mais completa. O mesmo princípio vale para hambúrgueres e sorvetes: a ideia é buscar uma refeição satisfatória, sem separar a comida entre permitida e proibida.
“Nutrição não precisa ser sobre encontrar o substituto 'fit' de tudo. É também aprender a consumir o alimento original com equilíbrio”, orienta a nutricionista.
Antes de comer, uma pergunta pode ajudar: “Do que eu estou precisando agora?”. A resposta pode ser comida, mas também descanso, uma pausa, companhia, carinho ou alguns minutos de prazer. Identificar a necessidade amplia as possibilidades sem retirar da comida o espaço que ela pode ocupar na vida.
Uma alimentação equilibrada não exige perfeição nem compensação posterior. Para Giovana Torres, comer bem envolve construir uma relação possível, prazerosa e sustentável com os alimentos, permitindo que itens prazerosos convivam com aqueles que fornecem nutrientes ao organismo.



