RIO — A economia brasileira já apresenta sinais de perda de ritmo, apesar dos estímulos fiscais do governo, avaliou a economista Silvia Matos durante debate realizado no III Seminário de Análise Conjuntural. Ela projetou crescimento de 1,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2026, com possibilidade de variação leve para cima ou para baixo, cenário que classificou como muito próximo da estagnação.
Coordenadora do Boletim Macro do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), Matos afirmou que os indicadores do terceiro trimestre apontam fraqueza da atividade. A previsão é de crescimento abaixo de 2%, enquanto o mercado de trabalho também começa a mostrar menor criação de empregos. Com isso, a massa de rendimentos tende a crescer menos, em um contexto de perda de ritmo da demanda provocada pelo elevado endividamento de famílias e empresas.
Pressão fiscal e monetária
Na avaliação da economista, a política fiscal expansionista e a dívida pública elevada mantêm os juros reais em patamar alto por um período prolongado. O movimento resulta de um conflito entre as políticas fiscal e monetária, descrito por ela como um “cabo de guerra”. Matos afirmou que o nível elevado dos juros é mais prejudicial do que positivo para a economia.
Ela também destacou que setores que tiveram participação importante no desempenho dos anos anteriores, como o agronegócio, podem não repetir o mesmo ritmo por fatores como o El Niño. Para Matos, a desaceleração econômica já alcançou o país.
Rogério Xavier, sócio-fundador da SPX Capital, disse que o Brasil enfrenta uma crise fiscal e um endividamento semelhantes aos de países desenvolvidos, mas ainda não conta com a mesma credibilidade das grandes economias globais. Segundo ele, o impulso parafiscal chega a cerca de 2,5% do PIB, considerando o déficit público, os estímulos por meio de crédito, os programas governamentais e o aumento dos gastos públicos.
Xavier acrescentou que o esforço adicional relacionado ao parafiscal é de cerca de 1,8% do PIB. Ele se posicionou contra propostas de redução forçada dos juros e contra o uso de reservas internacionais para controlar o câmbio. Na avaliação do economista, essas medidas poderiam provocar pânico entre investidores estrangeiros e detentores de ativos, fuga de capitais e criação de mercados paralelos de dólar.
Juros internacionais
José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV/Ibre e ex-diretor do Banco Central, analisou a estratégia do Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, para reduzir a inflação sem interromper o crescimento econômico. Para ele, a postura indica a possibilidade de juros internacionais mais moderados, mas os juros reais longos continuarão pressionando as economias emergentes, especialmente o Brasil.
Senna atribuiu a persistência desse ambiente a dois fatores: o déficit público elevado, inclusive nos Estados Unidos, e a forte demanda por crédito impulsionada pela tecnologia. No caso brasileiro, esse cenário dificulta a condução da política monetária pelo Banco Central.
O economista também afirmou que, sem uma forma de ajustar as contas públicas no mundo desenvolvido e de conter o entusiasmo com inteligência artificial e data centers, os juros reais podem permanecer elevados no mundo. Ele considerou compatível com as projeções do próprio Federal Reserve a decisão recente de elevar os juros. As estimativas citadas apontam continuidade do crescimento da economia americana, estabilidade do desemprego e queda da inflação de 3,7% para 2,3%.
Além de Matos, Xavier e Senna, participou do debate Samuel Pessôa, pesquisador macro do BTG Pactual e pesquisador associado do FGV/Ibre. O seminário foi realizado pelo FGV Ibre e pelo Estadão nesta sexta-feira, 18.



