Belo Horizonte, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
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Dívida e tensão política reduzem confiança nos EUA como porto seguro

Bancos centrais e fundos de pensão revisam posições em ativos americanos, enquanto o aumento da dívida eleva a cautela dos investidores.

Dívida e tensão política reduzem confiança nos EUA como porto seguro
Foto: AP Photo/Julio Cortez

Movimentos recentes de bancos centrais e fundos de pensão indicam uma perda gradual de confiança dos investidores nos Estados Unidos como principal porto seguro da economia global. França e Holanda retiraram reservas em ouro mantidas nos EUA, enquanto o Norges Bank Investment Management, da Noruega, informou que pretende reduzir sua posição em títulos americanos.

A mudança ocorre em meio ao aumento do risco fiscal dos Estados Unidos e às tensões geopolíticas associadas ao presidente Donald Trump. O país ainda é a maior economia do mundo, o dólar continua sendo a moeda de reserva internacional e os títulos do Tesouro americano permanecem entre os ativos mais procurados pelos investidores.

Dívida americana e custo de financiamento

A dívida dos Estados Unidos ultrapassou US$ 40 trilhões no mês passado, o maior nível já registrado. O montante equivale a aproximadamente 120% do PIB, de acordo com Luis Otávio Leal, economista-chefe e sócio da G5 Partners. Ele afirma que US$ 20 trilhões foram acumulados entre 2017 e 2026 e que a dívida dobrou em 10 anos.

O endividamento elevado não é exclusivo dos EUA. Desde a pandemia de covid-19, países ampliaram suas dívidas para enfrentar a crise sanitária. No caso americano, porém, decisões recentes do governo Trump aumentaram a preocupação do mercado. O “One Big Beautiful Bill”, aprovado pelo presidente, deve acrescentar mais de US$ 4 trilhões à dívida ao longo da próxima década.

O professor Armando Castelar, da FGV Direito Rio e do Instituto de Economia da UFRJ, afirma que o crescimento da dívida e do déficit leva o governo a emitir mais títulos para financiar as contas públicas. Com isso, os juros e as despesas financeiras aumentam. Para ele, os títulos americanos deixaram de ser vistos como totalmente livres de risco, embora os Estados Unidos não tenham se tornado um destino considerado altamente arriscado.

Trump também ofereceu, na semana passada, um cheque de US$ 5 mil para cada adulto americano caso o Partido Republicano conquiste maioria na Câmara e no Senado nas eleições de meio de mandato, em novembro. O custo estimado da proposta supera US$ 1,3 trilhão.

Com o aumento da incerteza, os investidores passaram a exigir remuneração maior para comprar papéis da dívida americana. O rendimento do título de 10 anos está próximo de 5%. O título de 30 anos alcançou 5,37%, o maior patamar em 20 anos.

Economia ainda mostra resiliência

A perda de status dos Estados Unidos não significa que uma crise esteja prestes a ocorrer. Os investimentos em inteligência artificial indicam resiliência, e as projeções apontam crescimento de 2% da economia americana neste ano.

Seema Shah, estrategista-chefe global da Principal Asset Management, afirma que o aumento dos investimentos ligados à inteligência artificial, a liquidez abundante e a situação financeira das famílias americanas ainda sustentam a força relativa do país. Ao mesmo tempo, ela cita os déficits persistentes, o aumento da emissão de dívida e a incerteza sobre as políticas públicas como fatores que aparecem nos prêmios mais altos exigidos pelos investidores.

A economia americana permanece aquecida e a inflação está acima da meta de 2%. Por isso, o mercado avalia que o Federal Reserve, o banco central dos EUA, poderá voltar a elevar os juros neste ano. Uma política monetária mais restritiva aumentaria o custo de financiamento da dívida.

A avaliação de Rodrigo Sgavioli, líder de alocação da XP, é que os Estados Unidos ainda apresentam uma posição relativa melhor que a de outras economias desenvolvidas, como Japão, Alemanha, França e Reino Unido, todas diante de desafios fiscais.

Tensões geopolíticas e impacto no Brasil

O ambiente de incerteza também foi ampliado pelas decisões de Trump sobre comércio e relações internacionais. O presidente publicou neste mês um mapa em sua rede social no qual Estados Unidos, México, Canadá, Cuba, Groenlândia e Islândia apareciam cobertos pela bandeira americana. Para Castelar, a questão da Groenlândia prejudicou o relacionamento com a Europa e com a União Europeia, por envolver um território que faz parte da Dinamarca.

A alta dos rendimentos dos títulos americanos afeta outros países porque aumenta o retorno exigido pelos investidores para financiar suas dívidas. No Brasil, a dívida bruta chegou a 82,5% em julho, conforme o último dado divulgado. Embora inferior à dos Estados Unidos, o nível é considerado elevado para uma economia emergente.

Esse cenário reforça a necessidade de o governo brasileiro encaminhar um ajuste fiscal a partir do próximo ano. Para Leal, uma situação externa mais difícil reduz o espaço para a queda dos juros no Brasil: o piso projetado, que em 2016 poderia ficar entre 5% e 6%, agora estaria entre 7% e 8%.

Texto produzido pela Redação Radar do Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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