Os Estados Unidos estão perdendo parte do status de porto seguro da economia global, avalia Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Para ele, a credibilidade internacional do país pode ser recuperada parcialmente se os eleitores escolherem um presidente estável em 2028, mas a confiança não voltaria integralmente.
Eichengreen afirma que o desgaste decorre de fatores políticos internos e externos. Dentro do país, ele cita o enfraquecimento dos mecanismos de freios e contrapesos ao Poder Executivo, além de questões relacionadas ao Estado de Direito e ao controle da corrupção. No cenário internacional, aponta a redução da confiabilidade das alianças geopolíticas dos Estados Unidos.
“São esses fatores políticos que estão enfraquecendo o status de porto seguro dos EUA e do dólar”, disse o professor.
Dívida e polarização
A parcela dos títulos do Tesouro americano mantida no exterior vem diminuindo de forma gradual e contínua ao longo da última década. Na avaliação de Eichengreen, porém, o recuo da confiança internacional nesses papéis está mais ligado aos fatores políticos do que à preocupação recente com a sustentabilidade da dívida pública. Ele ressalva que a situação fiscal pode ganhar importância daqui para frente.
O professor também diferencia o momento atual de episódios anteriores de preocupação com déficits e endividamento. O principal elemento, segundo ele, é o grau elevado e crescente de polarização política. Em um artigo apresentado em uma conferência do Fed de Kansas City, em 2023, Eichengreen e um coautor analisaram casos de países que conseguiram controlar níveis altos e crescentes de endividamento. O estudo relacionou esse resultado ao crescimento econômico forte e à baixa polarização política.
Para Eichengreen, não há hoje um substituto confiável para os Estados Unidos como porto seguro global. Ainda assim, a ausência de alternativas não impede que a confiança no dólar seja perdida.
Efeitos sobre comércio e mercados
Uma eventual perda desse papel deixaria os mercados financeiros mais voláteis, sobretudo os de câmbio. O crédito necessário para concluir transações internacionais também ficaria mais caro e difícil de obter, enquanto a globalização, como é conhecida atualmente, estaria sob risco.
O professor considera compreensível que países como o Brasil diversifiquem suas exportações diante da incerteza sobre o acesso ao mercado americano provocada pelas tarifas de Trump. Na avaliação dele, esse movimento tornaria mais caros tanto a produção quanto o consumo nos Estados Unidos, com efeito negativo para a economia do país.
Mesmo com a possibilidade de recuperação parcial da credibilidade em 2028, Eichengreen afirma que o mundo passou a considerar mais frágeis as instituições criadas para limitar um presidente transgressor. Para ele, essa percepção não será facilmente revertida.



