A Nvidia se tornou a empresa mais valiosa do mundo impulsionada pela procura por unidades de processamento gráfico (GPUs), usadas para alimentar sistemas de inteligência artificial. A companhia é avaliada em US$ 5,4 trilhões e poderá alcançar US$ 370 bilhões em lucro líquido no próximo ano. Até 2029, suas vendas podem chegar a US$ 1 trilhão.
A empresa foi criada em 1993, e sua trajetória ganhou velocidade após o lançamento do ChatGPT, no final de 2022. Desde então, o preço de suas ações aumentou 14 vezes. As dez maiores companhias de capital aberto associadas ao desenvolvimento da IA correspondem a 40% do valor do índice S&P 500. A Nvidia, sozinha, representa 8%.
Financiamento e risco de bolha
Além de vender chips, a Nvidia passou a oferecer dinheiro ou garantias para proprietários de data centers e laboratórios de IA comprarem seus produtos. Os acordos somam US$ 1 trilhão. Críticos comparam essa estratégia ao financiamento de fornecedores usado por fabricantes de equipamentos de rede durante a bolha da internet de 2000-2001.
A comparação tem limites. Se os investimentos em IA derem resultado, a iniciativa pode acelerar a adoção da tecnologia e elevar a produtividade. Caso fracasse, a maior parte do prejuízo deverá recair sobre os acionistas da Nvidia. Ainda assim, existe o risco de os clientes acionarem as garantias caso o uso de IA não cresça no ritmo esperado e o valor dos chips usados caia rapidamente.
A exposição total da Nvidia ao crédito, incluindo empréstimos e apoio aos clientes, é estimada pelo Morgan Stanley em US$ 200 bilhões até o início de 2029. A dívida indireta poderia chegar a US$ 300 bilhões ou mais. Atualmente, somente os seis maiores bancos dos Estados Unidos têm dívidas superiores a esse patamar.
Caixa forte e concorrência
A Nvidia tem US$ 99 bilhões em caixa e continua gerando recursos. Nos últimos três anos, suas vendas anuais praticamente dobraram, enquanto a margem bruta subiu de menos de 60% para 75%. A companhia deverá gerar cerca de US$ 200 bilhões este ano.
Essa capacidade financeira diferencia a Nvidia da Cisco, que se tornou brevemente a empresa mais valiosa do mundo em 2000 e dependia mais de dívida. Mesmo com a manutenção dos compromissos, a Nvidia ainda estaria, em 2028, menos alavancada do que todas as empresas, com exceção de 39 companhias não financeiras do S&P 500. Os lucros teriam de cair 60% para que a empresa perdesse sua classificação de crédito de grau de investimento.
A fabricante também enfrenta concorrência crescente. Cerca de metade de sua receita vem dos hiperescaladores americanos de computação em nuvem — Amazon, Google, Meta e Microsoft —, que desenvolvem chips próprios. Os produtos de IA que não são da Nvidia já representam 38% do mercado, contra 26% em 2023. Ao mesmo tempo, a empresa reduziu os gastos em pesquisa e desenvolvimento: antes, investia mais de um quinto das vendas; agora, aplica menos de um décimo.
Receita ainda distante dos investimentos
A demanda por IA já gera receitas para empresas do setor. As vendas da Anthropic passaram de US$ 5 bilhões no primeiro trimestre para US$ 11,5 bilhões no segundo. A OpenAI também aparece como uma das principais concorrentes. No conjunto, a inteligência artificial pode estar gerando cerca de US$ 150 bilhões por ano para o setor de tecnologia americano.
O valor ainda está distante dos US$ 2,5 trilhões necessários para cobrir os gastos de capital em IA, embora o crescimento seja rápido. Jensen Huang, presidente-executivo da Nvidia, avalia que o principal obstáculo é a falta de infraestrutura, e não de demanda. Por isso, a empresa oferece financiamento próprio para ampliar a capacidade de data centers.
Huang conta com a adesão dos grandes hiperescaladores e de instituições financeiras. No mês passado, Goldman Sachs, BlackRock, Blackstone e outros grupos se juntaram à Nvidia em uma iniciativa de data centers de US$ 500 bilhões. A aposta pode antecipar a expansão da IA, mas também concentra riscos relevantes na própria empresa e em seus investidores.



