SÃO PAULO — O uso de dados próprios pode ser o principal diferencial das empresas que adotam inteligência artificial, enquanto aplicações mais básicas da tecnologia tendem a se tornar commodities. Essa avaliação foi apresentada por especialistas durante o Arena Impacto, realizado na quinta-feira (3), no Cubo Itaú, em São Paulo.
Silvio Meira, professor emérito do Centro de Informática da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), afirmou que a inteligência artificial pode organizar informações, ampliar o campo de visão e apresentar possibilidades, mas não define os objetivos nem assume a responsabilidade pelas escolhas. Para ele, a capacidade mais importante passou a ser reconhecer quando não se deve confiar na tecnologia.
Na avaliação de Meira, a vantagem competitiva aumenta quando a empresa integra a IA aos próprios dados, à governança e à estrutura organizacional. Descrição, diagnóstico e previsão estão entre os usos mais simples, enquanto a recomendação de ações e a comparação de alternativas representam aplicações mais avançadas.
O professor também apontou que algumas companhias evitam colocar informações proprietárias em ambientes de nuvem por preocupações relacionadas a compliance e governança. Como alternativa, utilizam dados públicos ou de mercado, mas isso não produz o mesmo diferencial que o conhecimento acumulado internamente e convertido em inteligência.
Aplicações no agronegócio
Ricardo Cavallini, autor de livros sobre negócios e inovação, disse que a IA pode ser empregada em produtividade, simulações e na criação de produtos, serviços e soluções. No agronegócio, citou casos em que a tecnologia gera economia de 87% no uso de químicos.
Para o vice-presidente global da Solinftec, Denis Arroyo, produtores rurais precisam considerar a inteligência artificial como parte permanente do desenvolvimento do setor, e não como um modismo ou um produto isolado. Marco Righetti, diretor de tecnologia da Oracle na América Latina, afirmou que o Brasil tem oportunidades de ampliar a infraestrutura para esse tipo de uso, inclusive com data centers em fazendas e processamento local com soberania de dados.
Executivos que utilizam a tecnologia nas operações disseram que a IA pode automatizar tarefas e acelerar processos, mas seu valor depende da forma como as pessoas a aplicam. Daniela Cachich, CEO da divisão Beyond, da Ambev, afirmou: “O grande diferencial é o humano que está usando”.
Paula Harraca, presidente da Ânima Educação, declarou que a tecnologia também exige melhores perguntas dos usuários, além de repertório, experiência, curiosidade, criatividade e pensamento crítico.
Paulo Vicente Alves, professor da Fundação Dom Cabral, avaliou que as tecnologias atuais ainda não são definitivas. Segundo ele, a revolução deve alcançar seu auge na década de 2040. Meira acrescentou que transformações que antes levavam décadas agora ocorrem em dois ou três anos, o que exige avaliar os investimentos pela capacidade de preparar as empresas para decidir como competir no futuro.



