SÃO PAULO — A inteligência artificial já é usada para acelerar o desenvolvimento de veículos, testar produtos e apoiar a relação entre professores e alunos. As aplicações foram apresentadas por executivos da Ambev, do Ânima Educação e da GWM Brasil durante o painel “Quem vai liderar a inovação”, realizado nesta quinta-feira (3/9), no Arena Impacto.
Na GWM Brasil, a tecnologia participa de etapas da linha de montagem e do desenvolvimento dos veículos. Ricardo Bastos, diretor de Relações Institucionais da empresa e presidente da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), afirmou que a IA é aplicada em processos de desempenho, calibração, comportamento do automóvel em diferentes condições de rodagem e integração entre sistemas elétricos e de combustão.
Desenvolvimento mais rápido e foco no cliente
Bastos comparou o ritmo atual ao início de sua trajetória na indústria automobilística. Um veículo que antes poderia levar pelo menos seis anos entre a concepção e o lançamento passou a ser desenvolvido em dois ou três anos, segundo ele. O executivo, porém, avaliou que o setor ainda está “engatinhando” no aproveitamento das possibilidades da tecnologia.
Para o diretor, a inovação deve responder às demandas dos usuários. “Os usuários demandam a eletrificação inicialmente por razões ambientais e econômicas, bem como veículos capazes de incorporar novas funções e tecnologias”, disse. Ele também afirmou que a GWM busca diferenciar o automóvel em um mercado no qual o produto pode se tornar uma commodity.
Na Ambev, a inteligência artificial foi incorporada a áreas como logística, treinamento de funcionários e desenvolvimento de produtos. Mais de 500 pessoas participaram de capacitações relacionadas à tecnologia, e a liderança da companhia esteve em mais de 80 sessões sobre o tema.
A empresa também utiliza personas sintéticas para simular perfis de consumidores e avaliar produtos e conceitos durante o processo de inovação. A ferramenta acelera análises que antes dependiam apenas de pesquisas convencionais.
Aplicações em educação e bebidas
Paula Harraca, CEO do Ânima Educação, apresentou a IARA, ferramenta de inteligência artificial voltada à reinterpretação da aprendizagem. A proposta é apoiar e qualificar a relação entre professores e alunos, sem substituí-la. O uso da tecnologia faz parte de uma aproximação entre teoria e prática adotada pelo grupo, com o objetivo de ampliar a disponibilidade dos docentes para o contato com os estudantes.
Harraca afirmou que a IA deve ser compreendida como meio, e não como finalidade da inovação. Para ela, as empresas precisam definir também os limites do que não desejam delegar à tecnologia. “Inovar não é usar tecnologia, mas sim gerar inteligência coletiva e potencializar o que é profundamente humano”, disse.
Daniela Cachich, presidente da Beyond, divisão da Ambev responsável pelo portfólio de bebidas não alcoólicas e alcoólicas não cervejeiras, relacionou a adoção da IA às necessidades de consumidores e clientes. Ela afirmou que a tecnologia ampliou a capacidade de empresas e pessoas de identificar mudanças de comportamento e responder a elas com mais rapidez.
A Beyond fatura cerca de US$ 2 bilhões anuais, e aproximadamente 30% desse valor vêm de produtos lançados nos últimos cinco anos. Os refrigerantes zero representam cerca de 30% do mercado da categoria no Brasil, enquanto bebidas com proteína, fibras e outras características especiais estão entre os segmentos de maior crescimento.
A Ambev atende cerca de 1,2 milhão de pontos de venda, dos quais aproximadamente 90% utilizam a plataforma digital BEES. Para Cachich, a estratégia combina a criação de demanda com a capacidade de atendê-la. Ela também defendeu que a adoção da IA seja transversal, envolvendo a companhia como um todo e retirando profissionais de tarefas repetitivas para direcioná-los a atividades capazes de gerar valor.
Relação com o agronegócio
Ao discutir possíveis aplicações no agronegócio, Harraca afirmou que o desenvolvimento de soluções deve começar pela escuta dos agentes da cadeia e pela identificação de problemas concretos. No Ânima, essa lógica levou equipes a campo para compreender necessidades e construir soluções educacionais voltadas ao setor.
A executiva também avaliou que a criatividade pode favorecer empresas e profissionais brasileiros, desde que esteja acompanhada de organização e da compreensão dos desafios específicos de cada área. O painel reuniu experiências dos setores de bebidas, educação e mobilidade para discutir resultados concretos do uso da inteligência artificial e sua relação com as pessoas.



