Terça-feira, 8 de setembro de 2026
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Pessimismo econômico ganha espaço nas redes sociais chinesas

Crise imobiliária, desemprego jovem e empregos precários alimentam críticas e contranarrativas que desafiam a censura na China.

Pessimismo econômico ganha espaço nas redes sociais chinesas
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Um vídeo publicado no Bilibili com orientações para sobreviver como pessoa sem-teto foi visto mais de 6 milhões de vezes e chegou ao segundo lugar entre os conteúdos mais acessados da plataforma. A repercussão reflete o avanço do pessimismo econômico nas redes sociais chinesas, onde usuários transformam dificuldades pessoais em humor, críticas e formas de contestação à propaganda oficial.

O guia sugere dormir perto de lixeiras, usar papelão contra a umidade e evitar câmeras de vigilância. Espectadores apelidaram o conteúdo de “Estudo da Juventude”, em referência ao programa de educação política da Liga da Juventude Comunista, e fizeram piada com a possibilidade de ele se tornar uma disciplina obrigatória para os jovens em 2026.

Crise econômica e mudança no comportamento online

O Partido Comunista Chinês tenta manter a “energia positiva” como sentimento predominante na internet, com mensagens sobre conquistas econômicas, gratidão ao partido e confiança no futuro do país. Mas o crescimento econômico desacelerou, a crise imobiliária reduziu o valor de imóveis e a busca por trabalho se tornou mais difícil e menos segura.

A taxa oficial de desemprego entre os jovens chegou a 17,9% em julho. Mais de 200 milhões de pessoas trabalham no chamado “emprego flexível”, expressão usada pelo governo para designar uma ampla economia de bicos. No RedNote, também conhecido como Xiaohongshu, uma hashtag que incentiva os usuários a guardar dinheiro foi visualizada quase 120 milhões de vezes.

RedNote, Douyin, Weibo e outras plataformas passaram a reunir publicações sobre salários baixos, falta de empregos, desvalorização dos imóveis e medo do futuro. Parte dos usuários recorre ao humor sombrio. Outros aproveitam hashtags e publicações oficiais para convertê-las em alvo de zombaria.

A dificuldade de encontrar trabalho também aparece associada ao afastamento do casamento e da parentalidade entre os jovens. Pessoas de meia-idade que seguiram caminhos considerados seguros passaram a questionar decisões como comprar imóveis, adquirir carros, investir ou se casar cedo. Uma publicação no RedNote afirmou que quem evitou essas escolhas teria saído em vantagem; o texto recebeu quase 2 mil curtidas.

Críticas indiretas ao governo

As manifestações também alcançam temas relacionados a Xi Jinping e ao governo do Partido Comunista, embora frequentemente por meio de referências indiretas. Em novembro, comentários em um post do Douyin sobre o provérbio chinês “yichou wannian”, associado à ideia de ser lembrado pela infâmia, fizeram alusões ao líder chinês, muitas vezes chamado apenas de “ele”.

Li Ying, conhecido online como “Professor Li”, administra no X uma conta que reúne informações sem censura sobre a China. Ele disse que sua equipe identificou um aumento “exponencial” de publicações pessimistas e subversivas neste ano. “Hoje, vemos tanto disso que mal chama mais a atenção”, afirmou Li, ao comparar a situação atual com 2022.

Segundo Li, a deterioração econômica levou as pessoas a fazer perguntas que antes não precisavam considerar. Reclamações sobre salários, empregos e atrasos de pagamento podem parecer individuais, mas, em conjunto, formam uma visão diferente da narrativa oficial de progresso e prosperidade.

Em um exemplo, um vídeo no Douyin que apresentava o Partido Comunista como o maior partido do mundo recebeu 41 mil comentários semelhantes, com emojis de choro e sinais gráficos. Posts de órgãos governamentais e da mídia estatal também passaram a receber respostas sarcásticas.

O professor Christian Göbel, da Universidade de Viena, chama essa prática de “amplificação subversiva”. A estratégia usa o alcance das contas oficiais para enfraquecer as mensagens que elas pretendiam divulgar, sem que os usuários precisem criar uma audiência própria.

Tentativas de conter a negatividade

A censura chinesa continua controlando a internet, mas enfrenta dificuldades para eliminar o grande volume de críticas. Em 2023, o Ministério da Segurança do Estado classificou como questão de segurança e política os esforços para “falar mal da economia chinesa”. No ano passado, o órgão regulador da internet orientou as plataformas a retirar afirmações de que trabalho duro e educação seriam inúteis, além de memes e piadas considerados excessivamente pessimistas.

Em abril, o Ministério da Segurança do Estado acusou uma organização estrangeira não identificada de financiar influenciadores do “deitar-se”, tendência associada a jovens que consideram inútil se esforçar diante de um futuro econômico sombrio. A acusação gerou uma nova contranarrativa no Weibo: usuários relacionaram o fenômeno à escassez de empregos, aos baixos salários e às jornadas extensas. O ministério fechou os comentários da publicação.

Para Göbel, o controle desse tipo de conteúdo é incerto. “Qualquer narrativa que tentasse fazer isso desaparecer seria um insulto às pessoas que estão sofrendo”, disse o professor.

Texto produzido pela Redação Radar do Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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