A taxa de desemprego no Brasil recuou de 13,9% em janeiro-março de 2017 e 14,9% em janeiro-março de 2021 para 5,3% em maio-julho de 2026. O resultado mais recente fica próximo do menor nível registrado, de 5,1% em outubro-dezembro de 2025.
A queda reacendeu o debate sobre a taxa natural — ou neutra — de desemprego, faixa que não exerce pressão sobre a inflação. Antes da redução recente, estimativas apontavam um nível entre 9,5%-10%. Hoje, o consenso está em torno de 7-7,5%, patamar compatível com as pressões inflacionárias observadas.
Um estudo do Banco Central, intitulado “Inflação de serviços à luz da curva de Phillips: uma atualização”, indica que a queda da taxa natural começou em 2010 e ganhou velocidade a partir de meados da década passada. Na leitura mais recente, a estimativa central ficou em 7,2%.
A reforma trabalhista sancionada pelo ex-presidente Michel Temer em julho de 2017 é apontada como um dos possíveis fatores. Ao flexibilizar as condições de contratação e regularizar jornadas reduzidas, a mudança pode ter permitido um desemprego menor sem aumento correspondente da inflação. O início anterior da queda, porém, sugere a participação de outros elementos.
Economistas do FGV-IBRE destacam que a força de trabalho ficou mais velha e mais educada, características associadas ao aumento da empregabilidade. Outro fator é a expansão dos trabalhadores por aplicativo, principalmente em serviços de transporte e entrega.
Aplicativos como porta de entrada
Dados do IBGE sobre o trabalho em plataformas digitais mostram que dois milhões de brasileiros estavam ocupados dessa forma em 2025, no trabalho principal ou secundário. Quase 25%, ou ¼, disseram ter escolhido essa atividade por não conseguir encontrar outro trabalho.
Esse resultado sustenta a hipótese de que as plataformas funcionam como empregadoras de última instância e podem reduzir de maneira mais estrutural a taxa de desemprego. Nos Estados Unidos, um estudo que analisou a entrada do Uber em cidades diferentes entre 2013 a 2018 identificou queda do desemprego quando o serviço começou a operar.
O efeito, contudo, vem acompanhado de menor proteção. Quase 60% dos motoristas de automóvel que trabalham por plataformas não têm cobertura da Previdência, contra 25,5% dos que não são plataformizados. Entre motoristas de motocicleta que usam plataformas digitais, a proporção chega a cerca de 80%.



