SÃO PAULO — A escolha de ativos para uma carteira de longo prazo foi discutida a partir de diferentes frentes no Suno Invest 2026, realizado no último sábado (12). Especialistas abordaram os efeitos da tributação, os limites da diversificação internacional, o financiamento do agronegócio e as oportunidades associadas à inteligência artificial.
As apresentações relacionaram o ambiente econômico à construção de carteiras, à gestão de riscos e ao planejamento patrimonial. Juros, inflação, decisões de bancos centrais e cenário econômico apareceram ao lado de temas como fundos imobiliários, investimentos internacionais e novas tecnologias.
Exposição internacional e novas tecnologias
Marcela Rocha, da Avenue, afirmou que a compra de ativos brasileiros negociados em dólar não garante diversificação. ADRs da Petrobras (PETR3; PETR4) ou da Vale (VALE3), por exemplo, mantêm o investidor exposto a empresas brasileiras e aos riscos ligados à economia do país. A mudança ocorre na moeda, mas não necessariamente no mercado ou na tese de investimento.
A executiva defendeu uma alocação internacional estrutural, distribuída entre economias, setores e fontes de retorno diferentes. O papel do dólar no sistema financeiro global também foi debatido. Apesar do avanço de outras moedas, o evento destacou que ainda não há substituto evidente para a moeda americana em liquidez, reservas e transações internacionais.
A inteligência artificial foi analisada pelo impacto sobre empresas e investimentos. O capex do setor inclui gastos com data centers, chips, servidores, energia e infraestrutura digital. A discussão se concentrou na capacidade de transformar esses aportes em receita e geração de caixa, e não apenas na possibilidade de existência de uma bolha.
Empresas de chips, semicondutores e computação em nuvem já apresentam modelos de monetização mais claros. Outras áreas ainda precisam demonstrar como os recursos aplicados serão convertidos em retorno. O movimento também chegou à renda fixa, com empresas de tecnologia recorrendo ao mercado de dívida para financiar projetos e disputando recursos com os títulos do Tesouro americano.
Tributação e organização financeira
A reforma tributária foi discutida pelos efeitos sobre empresas, famílias e investidores. Entre os pontos abordados estiveram a tributação de dividendos, a diferença entre lucro contábil e lucro fiscal, a distribuição de juros sobre capital próprio e o planejamento patrimonial.
A orientação apresentada foi incorporar a tributação à organização financeira durante o ano. A combinação entre renda fixa, dividendos, juros sobre capital próprio, pró-labore e outras fontes de renda pode modificar a carga efetiva de cada investidor.
Regularidade, crédito e agronegócio
Tiago Reis tratou da dificuldade de identificar o momento perfeito para investir e resumiu a discussão com a frase: “tempo no mercado vale mais que o momento de entrada”. Estudos apresentados compararam aplicações feitas em datas diferentes, inclusive estratégias que tentam alcançar as menores cotações. A diferença acumulada entre os métodos foi apresentada como menor do que muitos investidores imaginam quando os aportes ocorrem durante vários anos.
Nos fundos imobiliários, Marcos Baroni afirmou que a regularidade dos aportes deve prevalecer sobre a procura por um dia ideal. Ele também destacou a análise de imóveis, contratos, gestão, endividamento e relatórios dos fundos.
No agronegócio, Felipe Marques, CFO da Boa Safra (SOJA3), disse que o período de maior estresse no crédito pode criar espaço para investidores de longo prazo capazes de selecionar operações. Jônatas Couri, diretor de Agro da Suno, destacou a profissionalização dos produtores, o uso de tecnologias e a distribuição de insumos.
Segundo Couri, cerca de 80% das vendas de insumos são feitas a prazo. O crédito rural, explicou o painel, exige análise própria, considerando plantio, colheita, clima, cultura, produtividade e preços das commodities.
A diversificação entre classes, setores, geografias e prazos diferentes apareceu como ponto comum dos debates. A estratégia foi apresentada como forma de reduzir a dependência de um único cenário econômico e ampliar o acesso a oportunidades.



