SANTO ANDRÉ — A estreia de Pelé no time adulto do Santos aconteceu em um amistoso que, inicialmente, não despertava grande atenção. Em 7 de setembro, no estádio Américo Guazzeli, o adolescente entrou no segundo tempo contra o Corinthians Futebol Clube, de Santo André, e marcou o sexto gol santista na vitória por 7 a 1.
Edson Arantes do Nascimento tinha 15 anos, 10 meses e 15 dias. A partida foi disputada no bairro da Vila Alzira e valia o Troféu Independência, criado em referência à data em que se comemorava a independência do Brasil em relação a Portugal. O estádio não existe mais.
Um gol com registros corrigidos
Os relatos sobre o público e a sequência dos lances apresentam divergências. A autoria do gol também foi registrada de forma incorreta inicialmente. O mesário Nelson Cerchiari atribuiu o tento a Raimundinho, outro jogador que entrou na etapa final, mas corrigiu o documento 13 anos depois.
Schank, que jogava pelo Corinthinha, contou que Hélvio afastou a bola de cabeça antes de Pelé driblar um marcador, passar por Zico e Dati e finalizar na saída do goleiro Zaluar. O arqueiro, que defendia o chamado Galo Preto da Vila Alzira, passou a carregar um cartão de visitas com a inscrição “Zaluar Gol de Rei Pelé 001”.
Do apelido Gasolina ao reconhecimento
Naquele período, Pelé também era chamado de Gasolina. Segundo Urubatão, colega do Santos, o jovem se destacava pelo comportamento respeitoso com os companheiros mais velhos e com dona Georgina, proprietária da pensão onde morava em Santos.
“Era um menino extremamente educado, incapaz de responder mal para qualquer pessoa”, disse Urubatão em depoimento de 2007. Hélvio e Vasconcelos costumavam pedir ao garoto tarefas como comprar cigarros, enquanto ele trabalhava para melhorar o chute com a perna esquerda.
Pepe afirmou que Pelé chutava mal com a esquerda quando chegou ao clube, mas passou a treiná-la até alcançar um nível semelhante ao da direita. O ponta-esquerda também descreveu a evolução do atacante.
A transformação em Rei
A oportunidade naquele jogo surgiu porque o compromisso era visto como pouco relevante. Em 1957, Pelé se tornaria uma peça importante do Santos e chegaria à seleção brasileira. No ano seguinte, já era chamado de Rei.
Antes da consagração associada à conquista do Brasil na Copa de 1958, houve a vitória santista por 5 a 3 sobre o America, do Rio de Janeiro. O escritor Ruy Castro apontou esse jogo como o momento em que o menino, conhecido por nomes como Dico, Gasolina, Bilé, Pelé e Telé, passou a ser identificado precocemente com a realeza do futebol.
A expressão ganhou força após o triunfo brasileiro no Mundial, em texto da revista francesa Paris Match. Em fevereiro daquele ano, porém, Nelson Rodrigues já havia escrito que Pelé se sentia rei ao dominar a bola e driblar os adversários.
A trajetória que seria associada a 1.283 gols começou, portanto, com um adolescente educado, encarregado às vezes de buscar cigarros para os companheiros, marcando pelo Santos diante do Corinthinha em Santo André.




