PORTO ALEGRE — Um álbum comprado por R$ 20 no Brique da Redenção levou a fotógrafa Mayara Stuelp, 22 anos, a localizar os familiares de um casal retratado em 33 fotografias em preto e branco. A investigação durou duas semanas e terminou com a devolução das imagens e de documentos reunidos durante a pesquisa.
Mayara trabalha com fotografia documental e encontrou o álbum em um domingo de julho, entre antiquários de uma feira de artesanato, artes plásticas e antiguidades na Região Central de Porto Alegre. O objeto, de couro e bem conservado, reunia registros de diferentes momentos da vida de Eunice e João, incluindo eventos sociais, viagens, retratos familiares e cenas do cotidiano.
A princípio, a fotógrafa pretendia restaurar o álbum e usá-lo para guardar suas próprias fotografias. No entanto, nomes, datas, endereços e dedicatórias escritos atrás de algumas imagens despertaram sua curiosidade. Ela passou a pesquisar registros antigos para descobrir a identidade do casal e entender como aquelas lembranças haviam sido colocadas à venda.
“Eu me identificava com aquelas fotografias. Parecia que as pessoas não estavam posando”, contou Mayara. Com a ajuda do namorado, ela iniciou uma busca genealógica e publicou um vídeo nas redes sociais. A iniciativa mobilizou pessoas que consultaram arquivos históricos, documentos antigos e acervos de jornais. Uma pesquisadora de Curitiba também colaborou durante noites seguidas, enviando informações para relacionar as pistas.
As histórias de Eunice e João
Entre os registros, uma fotografia da infância indicou que Eunice havia nascido em 1922. Outra mostrava que ela tocava piano. A investigação apontou uma ligação com o Instituto de Educação de Porto Alegre, onde ela estudava aos 17 anos. Mais tarde, Eunice se tornou professora de piano e canto na instituição e ajudou a fundar uma associação de ex-alunas.
A certidão de casamento, datada de 24 de setembro de 1946, revelou que João Batista tinha como nome original Giambattista. Duas fotografias traziam dedicatórias em italiano. Conforme a pesquisa de Mayara, ele chegou ainda criança ao Brasil e passou a usar a versão brasileira do nome.
A localização dos familiares ocorreu em agosto, quando Mayara encontrou nas redes sociais o perfil de uma possível neta do casal. Depois de enviar uma mensagem sem receber resposta inicialmente, ela soube que a mulher havia reconhecido os avós nas imagens após a repercussão do vídeo.
As duas trocaram mensagens, e a neta enviou fotografias de Eunice e João já idosos, além de informações sobre a família. Ela também explicou que Eunice havia morrido há cerca de dois anos e que o álbum provavelmente se perdeu quando o apartamento foi vendido.
Na última semana, Mayara enviou as fotografias pelos Correios para Santa Catarina, onde a neta mora. Também encaminhou certidões, registros e outros documentos reunidos na investigação, incluindo informações que a própria família desconhecia. Depois de poucos dias, recebeu a confirmação de que o material havia chegado.
O álbum, agora sem as fotografias, permaneceu com Mayara. Ela pretende restaurá-lo e usá-lo para guardar imagens próprias.



