A prisão de Valdecir Inácio Barbosa, suspeito de matar a esposa, fez Micheli Barbosa reviver a morte da própria mãe, Teresinha. Em 2022, ela foi assassinada pelo marido, Valdir Barbosa, irmão de Valdecir. O novo caso ocorreu no fim de junho.
Micheli, esteticista de 25 anos, conta que o pai era ciumento e controlador e agredia a mãe com frequência. Teresinha tentou se separar várias vezes, registrou ocorrências, fugiu para outras cidades e, mais tarde, passou a morar com a filha. Ainda assim, segundo Micheli, Valdir continuou a procurá-las.
Em 2021, depois de sair da prisão onde cumpriu pena por outro crime, ele passou a frequentar os locais onde mãe e filha estavam. No início de janeiro de 2022, apareceu armado na casa de Micheli, apontou um revólver para a cabeça dela e levou Teresinha à força.
Micheli chamou a polícia. As duas foram encontradas em uma residência de uma cidade vizinha, onde Valdir e Teresinha estavam. Durante a tentativa de negociação, os policiais ouviram disparos. Quando entraram no imóvel, encontraram Teresinha baleada. Valdir também estava morto. A mãe de Micheli chegou a ser socorrida, mas não resistiu.
“Foi a pior noite da minha vida, porque eu não pude fazer nada”, afirma Micheli.
Abusos e ameaças
Micheli também relata ter sido abusada pelo pai durante a infância. De acordo com ela, os episódios começaram depois de uma tentativa de separação de Teresinha. A mãe havia levado os filhos para a casa de parentes em uma cidade vizinha, mas Valdir conseguiu recuperar a guarda das crianças e levá-las de volta.
Ela afirma que só contou o que acontecia aos 14 anos, após o pai tentar atacá-la com uma faca. As duas procuraram a polícia, registraram a denúncia e fizeram exames. Antes da audiência, porém, Micheli diz que foi ameaçada e acabou negando os abusos durante o depoimento.
A prisão de Valdecir trouxe novamente essas lembranças. Micheli afirma que não imaginava ver o tio suspeito de um caso semelhante ao do irmão. Ela diz que Valdecir costumava participar de torneios de bocha acompanhado da esposa, descrita como uma mulher reservada, e que não sabia o que ocorria dentro da casa do casal.
“Só quem vive entre quatro paredes sabe o que uma pessoa é capaz de fazer”, diz.
A Defensoria Pública do Estado informou, por meio da assessoria de comunicação, que atua na defesa de Valdecir, mas que se manifestará apenas nos autos do processo. O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul e a polícia local não responderam aos pedidos de mais informações.
A mulher morta no caso que envolve Valdecir deixou duas filhas, uma de 21 anos e outra de 10. Micheli afirma que também enfrenta o estigma em uma cidade pequena e diz que a família acaba sendo associada aos crimes, embora não tenha responsabilidade pelo que ocorreu.



