Belo Horizonte, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
O radar da região e do país
Minas

Novos repasses ampliam valor pago por Vorcaro para filme de Flávio Bolsonaro

Relatório do Coaf aponta pagamento de 1,6 milhão de dólares em setembro e possível nova parcela em outubro de 2025.

Flávio ao lado de Mario Frias (à esq.), produtor do filme, Jim Caviezel, ator que interpreta Jair Bolsonaro, e Carlos Bolsonaro
								
								-
								
								Crédito: Reprodução
Reprodução

Breno Pires, de Brasília 01 Set 2026

Quando vieram a público conversas comprometedoras com Daniel Vorcaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência, procurou a imprensa para apresentar sua versão. Em entrevista, minimizou o áudio no qual cobrava dinheiro de Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia de seu pai. No fim da conversa, afirmou ainda que o banqueiro não destinava nenhum dólar ao filme havia meses, desde que as suspeitas sobre as fraudes do Master se tornaram públicas. “Olha só. O último pagamento que ele fez [...] foi em maio de 2025”, declarou.

A afirmação, porém, não correspondia aos registros. Reportagem publicada neste mês mostra que, em 16 de setembro de 2025, Vorcaro encaminhou mais uma parcela, de 1,6 milhão de dólares, ao Havengate Development Fund, fundo americano responsável por administrar os recursos de Dark Horse. O valor exato da transferência foi de 1 milhão, 666 mil e 667 dólares. A informação aparece em um relatório do Coaf, órgão responsável pela fiscalização de transações financeiras, ao qual foi possível ter acesso. O documento indica que a relação financeira entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro permaneceu por muito mais tempo do que o senador reconheceu.

A transferência ocorreu oito dias depois de Flávio mandar uma mensagem ao banqueiro para cobrar parcelas atrasadas. Com esse pagamento, que ainda não era conhecido, a quantia total enviada por Vorcaro para a cinebiografia de Bolsonaro subiu de 10,6 para 12,3 milhões de dólares. Pela cotação daquele período, o montante correspondia a mais de 65 milhões de reais.

Também existem indícios de que um pagamento adicional tenha sido feito depois de uma nova cobrança de Flávio. Na manhã de 22 de outubro, no terceiro dia de gravações, o senador voltou a entrar em contato com Vorcaro. Às 8h54, escreveu: “Bom dia, mermão! Já estamos no terceiro dia de gravação. Estamos no limite.” Nove minutos depois, insistiu, dizendo que, se não fosse possível liberar o dinheiro, procuraria outro caminho com urgência. Às 9h22, Vorcaro respondeu que cuidaria do assunto e verificaria naquele momento.

A cobrança teve resultado. Um trecho inédito das conversas por WhatsApp entre Daniel Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda, que ajudou a obter recursos para o filme, mostra que Miranda enviou uma mensagem ao banqueiro menos de 1 hora depois dos contatos de Flávio. Ele perguntou se era possível liberar as parcelas do filme e acrescentou, com um emoji, que tudo poderia parar. Vorcaro respondeu: “Sim. Liberei mais uma hoje”. Miranda disse que avisaria os responsáveis e que Flávio havia informado que ligaria para o banqueiro. Em seguida, Vorcaro pediu que Miranda apresentasse a Flávio suas desculpas pelos atrasos nas parcelas. Caso esse outro pagamento de 1,6 milhão de dólares tenha realmente sido feito, como afirmou o banqueiro, o total desembolsado por ele alcançará 14 milhões de dólares, ou 72 milhões de reais.

Com base nos dados já conhecidos, o acordo firmado entre o banqueiro e o candidato à Presidência previa o pagamento de 24 milhões de dólares. A transferência realizada em setembro eleva a sete o número de parcelas reconhecidamente pagas por ordem de Daniel Vorcaro em atendimento a Flávio Bolsonaro. O possível repasse de outubro representaria a oitava parcela.

Questionado sobre o motivo de ter ocultado que sua relação financeira com o banqueiro se estendeu praticamente durante todo o ano de 2025 e sobre o valor total pago por Vorcaro, Flávio Bolsonaro não quis se manifestar. Sua assessoria afirmou que a produtora do filme deveria ser consultada sobre a existência de outros pagamentos. “Isso não é com a gente.” Mesmo diante da informação de que a nova parcela expunha uma declaração pública falsa do candidato, a assessora manteve a avaliação de que Flávio não teria nada a explicar.

Não foi a primeira vez que o senador apresentou uma versão falsa sobre o caso Dark Horse. Em março passado, depois que se tornou público que seu número estava na agenda de Vorcaro, Flávio afirmou, em entrevista, que nunca havia mantido contato com o dono do Master. Ao ser questionado sobre a razão de o filme ter sido financiado por Vorcaro, respondeu que a informação era mentira e perguntou de onde ela havia sido tirada.

Na entrevista, ele também declarou que o Havengate era fiscalizado pela SEC, órgão americano equivalente à Comissão de Valores Mobiliários no Brasil. Essa informação também não procede. Por fim, disse que o fundo havia sido encerrado assim que surgiram as primeiras suspeitas sobre os negócios de Vorcaro. Registros fazendários do Texas, contudo, indicam que o fundo continua ativo até hoje.

O caminho do dinheiro

A polícia investiga agora o percurso considerado tortuoso dos recursos. O dinheiro não era enviado diretamente pelas empresas de Vorcaro nem depositado na conta da produtora do filme, a Go Up Entertainment llc, nos Estados Unidos, caminho que seria o habitual. Em vez disso, Vorcaro remetia os valores por intermédio do doleiro Antonio Freixo Junior, conhecido como “Mineiro”. Ele é dono da Entre Investimentos e Participações e já se apresentou publicamente como especialista em “câmbio de saída, que é uma coisa mais arriscada”. O destino dos recursos era o Havengate, fundo sediado no Texas e administrado por Paulo Calixto, advogado especializado em imigração, sem atuação na área cinematográfica e amigo de Eduardo Bolsonaro, que também mora no Texas.

Como o Havengate transferia os recursos para a produtora do filme, as investigações procuram esclarecer se todo o dinheiro realmente era destinado à produção cinematográfica. A polícia apura se uma parte permaneceu no fundo ou foi parar nas mãos de Eduardo Bolsonaro, que passou a viver nos Estados Unidos em fevereiro do ano passado. Por coincidência, esse foi o mesmo mês e ano em que Vorcaro começou a enviar ao Havengate as parcelas do filme. A primeira remessa, no valor de 2 milhões de dólares, foi feita em 13 de fevereiro de 2025.

Até o momento, não há evidência de que parte dos milhões enviados por Vorcaro tenha sido desviada para financiar a permanência de Eduardo nos Estados Unidos. Os investigadores ainda buscam compreender com maior precisão qual era a função de Eduardo em relação aos recursos financeiros. Depois que o áudio de Flávio foi divulgado em maio passado, Eduardo diminuiu a importância de sua participação na produção. Em entrevista, disse apenas que chegou a aplicar 50 mil dólares de recursos próprios no filme para assegurar a contratação do diretor, mas que recebeu o valor de volta posteriormente.

Na documentação americana do filme, entretanto, Eduardo aparece em alguns momentos como “produtor executivo” e, em outros, como “financiador”. O objetivo das investigações é determinar até onde ia seu controle sobre o dinheiro mantido na conta do Havengate. A pergunta foi encaminhada à Go Up, mas não houve resposta objetiva. Na prática, o caso envolve duas caixas-pretas: a do filme e a do fundo.

Texto produzido pela Redação Radar do Contexto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Assine nossa newsletterAs principais notícias do dia no seu e-mail.