NOVA YORK — O Uruguai autorizou o Brasil a utilizar, em 2026, o excedente de sua cota de exportação de carne bovina para a China. O anúncio foi feito pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na segunda-feira (21/9), após encontro com o presidente uruguaio, Yamandú Orsi, em Nova York.
A redistribuição ainda não foi confirmada oficialmente pela China. Os dois presidentes participarão, nesta terça-feira (22/9), da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas.
Lula afirmou que tratou com Orsi de temas da agenda bilateral, incluindo infraestrutura e comércio agrícola, e agradeceu a autorização para o uso do volume uruguaio não ocupado. O governo brasileiro, porém, não divulgou detalhes da negociação nem informou como a medida será implementada.
Cota e aval chinês
A cota do Uruguai para exportar carne bovina à China sem tarifa extra em 2026 é de 324 mil toneladas. Segundo fontes, cerca de 80 mil toneladas poderiam ser repassadas ao Brasil, volume equivalente a aproximadamente um mês de embarques brasileiros para o mercado chinês.
Ainda não está definido se o acordo envolve uma troca de cotas. A proposta discutida pelo Ministério da Agricultura previa que o Brasil cedesse sua parcela da cota do Mercosul para exportação de carne bovina resfriada à União Europeia, com tarifa reduzida, em troca do volume uruguaio não utilizado na cota chinesa.
A efetivação depende da aprovação da China, que administra os volumes autorizados por meio do Ministério do Comércio chinês, o Mofcom. No início do ano, Pequim havia rejeitado um pedido brasileiro para redistribuir cotas não utilizadas por outros fornecedores.
Fernando Iglesias, analista da Safras & Mercado, disse que, sem o aceite chinês, o Brasil não teria acesso às cotas do Uruguai e de outros fornecedores, como Argentina, Estados Unidos e Nova Zelândia.
Impacto para os exportadores
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes afirmou que qualquer medida para ampliar o acesso ao mercado chinês é positiva, mas avaliou que o efeito em 2026 seria limitado pelo tempo necessário para negociação, embarque e trânsito da mercadoria. Para 2027, a entidade considera que a medida poderia ser mais relevante.
A associação citou a cota brasileira de 1,128 milhão de toneladas e o risco de esgotamento nos primeiros meses de 2027 caso o ritmo atual de vendas seja mantido. A entidade também defendeu previsibilidade e mecanismos para distribuir os embarques ao longo do ano.
Os embarques brasileiros já ultrapassaram a cota de 2026, estabelecida em 1,106 milhão de toneladas. Dados compilados pela Safras & Mercado indicam que 1,144 milhão de toneladas chegaram aos portos chineses até agosto.
O Uruguai utilizou pouco mais de 30% do volume autorizado para o ano e ainda poderia vender mais de 200 mil toneladas à China até dezembro. Os ministérios brasileiros da Agricultura e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços não se posicionaram sobre a negociação.



