O caso Banco Master passou a ser comparado à Operação Lava Jato pelo impacto político, pelas cifras bilionárias e pela influência atribuída aos envolvidos. As semelhanças, porém, convivem com diferenças no ritmo das investigações, no papel do Ministério Público e na dimensão dos grupos atingidos.
A divulgação, na terça-feira (1º), de mensagens trocadas pelo banqueiro Daniel Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, também envolveu o procurador-geral da República, Paulo Gonet. O episódio ampliou a pressão política e jurídica em torno do caso.
Ritmo das investigações e alcance dos escândalos
O ministro Gilmar Mendes, decano do STF, está entre os que associam o caso atual a abusos atribuídos às autoridades de Curitiba durante a Lava Jato, como o uso de prisões preventivas para pressionar investigados a fazer delações.
Alguns personagens aparecem nos dois episódios. O senador Ciro Nogueira (PP-PI) ainda enfrenta pendências relacionadas à operação iniciada no Paraná. O ex-presidente do PSDB Marconi Perillo e o ex-ministro petista Guido Mantega, processados na década passada, também surgiram em contratos de consultoria com o Master. Os três negam irregularidades.
A comparação também alcança os métodos de influência. As investigações sobre o Master revelaram a atuação de sua cúpula e de auxiliares próximos de Vorcaro. Na Lava Jato, a Odebrecht tinha um departamento de propina, empresas em paraísos fiscais e pessoas responsáveis por entregar dinheiro, conforme as apurações do período.
A tramitação judicial é uma das principais diferenças. A Lava Jato avançou simultaneamente na primeira instância e nos tribunais superiores. Em Curitiba, as autoridades dividiram denúncias e processos desde os primeiros estágios, e já havia réus condenados meses depois da primeira fase, em 2014.
No caso Master, até o momento indicado pelas investigações, não foram formalizadas acusações contra os envolvidos, mesmo após um ano de o caso se tornar público. O escândalo também está concentrado em Vorcaro e em seus auxiliares imediatos, enquanto a Lava Jato atingiu várias das maiores empreiteiras do país e contou com uma sequência de delações que produziu novos desdobramentos.
Pressão sobre o Supremo e repercussão eleitoral
A Lava Jato não provocou no alto escalão do Judiciário o mesmo tipo de crise institucional associado ao Master. O caso atual envolve revelações sobre o escritório de advocacia da família Moraes e a saída de Dias Toffoli da relatoria, em fevereiro.
Também há diferenças na atuação da Procuradoria-Geral da República. Durante a Lava Jato, o então procurador-geral Rodrigo Janot respaldou a força-tarefa, que ganhou projeção própria e impulsionou a carreira política de Deltan Dallagnol. Paulo Gonet, por outro lado, não identificou motivos para investigar ministros do Supremo, opôs-se à segunda prisão de Vorcaro, em março, e depois pediu a nulidade de um relatório da Polícia Federal sobre os diálogos envolvendo Moraes. Gonet também falou em abuso de autoridade por parte do ministro André Mendonça.
O ponto de contato mais forte entre os casos é o efeito eleitoral. A Lava Jato teve papel relevante nas eleições de 2014 e 2018. Depoimentos de Paulo Roberto Costa, ex-executivo da Petrobras, vieram a público no segundo turno de 2014. Em 2018, o sigilo de trechos da delação de Antonio Palocci foi retirado dias antes do segundo turno pelo então juiz Sergio Moro. O episódio contribuiu para que Moro fosse posteriormente considerado parcial ao julgar o hoje presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
As novas revelações ligadas ao caso Master também alimentam especulações sobre possíveis efeitos na campanha, especialmente por causa do caso “Dark Horse”, apontado como principal vulnerabilidade política do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL), e da operação que atingiu o senador petista Jaques Wagner.
O ambiente atual, contudo, não reproduz o auge da Lava Jato. A operação inspirou produções culturais, levou manifestantes às ruas, formou uma bancada no Congresso e estimulou uma campanha por mudanças na legislação. No caso Master, não há o mesmo clamor por punição nem a expectativa de que os processos judiciais, sozinhos, possam reformar a política brasileira.



