A Meta pretende levar a 16 países latino-americanos o sistema de notas da comunidade, que substitui a atuação de verificadores profissionais por avaliações feitas por usuários voluntários. A empresa ainda não definiu quando a ferramenta começará a funcionar na região.
A mudança ocorre durante a expansão de vídeos, áudios e imagens produzidos ou alterados por inteligência artificial. No Brasil, autoridades eleitorais já alertaram para conteúdos capazes de simular declarações que não foram feitas por candidatos, influenciar eleitores e provocar crises artificiais.
Como funcionam as notas
O modelo permite que usuários escrevam observações sobre publicações consideradas enganosas ou sem contexto. Uma nota só é exibida quando recebe avaliações suficientes de colaboradores. Para participar, é preciso ter mais de 18 anos, manter uma conta ativa há pelo menos seis meses e não acumular violações reiteradas das regras da empresa.
A ferramenta foi inspirada no sistema criado pelo Twitter em 2021 e ampliado depois da compra da plataforma por Elon Musk. Em janeiro de 2025, a Meta anunciou o fim do programa de verificação profissional nos Estados Unidos e a adoção das notas da comunidade. A implementação no país ocorreu em 2025, poucos dias antes da posse de Donald Trump.
A rede profissional mantida pela Meta foi criada há dez anos e remunera mais de 80 veículos em diferentes países, entre eles a AFP. A empresa pretende reduzir custos e transferir parte da checagem para voluntários, modelo que também é utilizado na rede X.
Críticas ao modelo coletivo
Laura Sanabria, editora do Detector de Mentiras, do site colombiano La Silla Vacía, e integrante da Junta de LatamChequea, afirma que a substituição pode enfraquecer a resposta à manipulação digital. Segundo ela, verificadores independentes monitoram conteúdos potencialmente enganosos no Facebook, no Instagram e no Threads, produzem análises com metodologia clara, classificam o material e alertam a plataforma, que decide se aplica etiquetas, reduz o alcance ou suspende contas.
Sanabria também diz que as notas costumam aparecer quando uma publicação já perdeu força. A avaliação precisa ser feita por pelo menos duas pessoas com perfis diferentes e experiência em conteúdos distintos. Estudos sobre o funcionamento do sistema no X indicam, segundo ela, que a publicação da nota pode ocorrer depois das 48 horas consideradas decisivas para a circulação de um conteúdo.
A editora estima que a resposta dos verificadores profissionais ocorra em cerca de três a quatro dias e afirma que esse trabalho pode alterar o comportamento de contas que compartilham informações falsas. Ela também aponta que a maior parte das notas é publicada em inglês, o que deixaria usuários de outros idiomas com menos colaboradores disponíveis.
Christine Balagué, fundadora da rede de pesquisa Good in Tech, avalia que a moderação baseada na multidão pode ser manipulada por pessoas interessadas em ampliar a desinformação. O Conselho de Supervisão da Meta advertiu em março que a expansão global do sistema pode trazer riscos para direitos humanos e danos concretos, sobretudo em países com histórico de repressão política.
Caso colombiano
A preocupação aumentou após um vídeo que alcançou 1,5 milhão de visualizações e mostrava supostas marchas contra o governo da Colômbia. La Silla Vacía comunicou o caso à Meta; as imagens eram falsas, e a plataforma classificou o conteúdo como enganoso.
O episódio foi citado por verificadores profissionais como exemplo dos riscos da redução de equipes especializadas. A inteligência artificial pode facilitar a criação de redes de contas falsas que atuam de maneira coordenada, enquanto grupos organizados também podem tentar direcionar as notas para reforçar narrativas falsas.
A Rede Europeia de Padrões de Verificação de Dados alertou que a diminuição dos esforços das plataformas contra a desinformação ameaça a integridade de processos democráticos e a confiança pública. A Meta afirma que o sistema amplia a participação dos usuários e torna a moderação mais transparente. Verificadores independentes contestam a eficácia, a velocidade e a resistência da ferramenta a manipulações.
A expansão deverá ocorrer ao longo dos próximos meses, mas não há data definida para o início na América Latina.



