BRASÍLIA — O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), tornou públicos 38 procedimentos relacionados às investigações sobre o Banco Master. A decisão veio após Edson Fachin, presidente da corte, estabelecer prazo de 24 horas para a divulgação do material, atendendo a um pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR).
A liberação, porém, não alcançou todos os documentos ligados ao caso. Mendonça justificou a manutenção de parte do sigilo pela necessidade de preservar as próximas etapas das investigações. A quantidade total de inquéritos relacionados ao Banco Master ainda não é conhecida.
Divergências no Supremo
A divulgação parcial provocou novas cobranças de ministros do STF. Alexandre de Moraes acusou Mendonça de agir de forma seletiva e afirmou que o colega, “diretamente interessado no julgamento”, teria escolhido de maneira subjetiva quais documentos ficariam públicos. Moraes também disse que ao menos 180 documentos continuavam sob confidencialidade.
O conflito ocorre após a divulgação de mensagens do celular de Daniel Vorcaro, ex-banqueiro e dono do Master. Os registros indicaram que Moraes manteve contato com Vorcaro até a prisão dele e foi questionado sobre o andamento da investigação e sobre uma possível fuga do país.
O relatório com essas informações foi produzido pela Polícia Federal a pedido de Mendonça e divulgado pelo ministro. Moraes reagiu solicitando uma investigação contra o colega. Fachin interveio e determinou a retirada do sigilo dos processos, com exceção do conteúdo que pudesse prejudicar as apurações policiais.
Na quinta-feira (10), Mendonça havia publicado a íntegra de 14 procedimentos, além do inquérito principal que deu origem aos demais. No início da noite desta sexta-feira (11), ampliou a divulgação para 38 procedimentos. Entre os autos liberados estão os que tratam do filme “Dark Horse” e outros que envolvem o ex-governador do Rio Cláudio Castro e os senadores Jaques Wagner e Ciro Nogueira.
Cristiano Zanin pediu acesso ao conteúdo bruto do celular de Vorcaro. O pedido foi rejeitado por Mendonça e reiterado durante esta sexta-feira. Gilmar Mendes, decano do Supremo, solicitou que Fachin também assumisse a investigação contra Mendonça e sugeriu o adiamento do julgamento previsto para a próxima terça-feira (15), sobre as conversas entre Moraes e Vorcaro. Há pressão para que a pauta seja ampliada.
Investigação sobre o filme
Os documentos divulgados mostram que Mendonça aceitou, em julho, um pedido da Polícia Federal para incluir Flávio Bolsonaro como investigado. O senador e candidato do PL à Presidência é apontado pela PF como interlocutor direto de Vorcaro na negociação de recursos para a produção de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro.
A polícia apura a possível prática de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos relacionados. Flávio afirmou: “Para mim, a melhor coisa que pode acontecer é a transparência total sobre esse assunto.” Ele também declarou que os documentos confirmariam sua versão de que não havia irregularidade em relação ao filme.
A Polícia Federal aponta que Flávio fez cobranças reiteradas para que Vorcaro investisse na produção. A investigação menciona a negociação de pelo menos US$ 24 milhões, equivalentes, no momento citado, a aproximadamente R$ 122,7 milhões. Desse total, pelo menos US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 62,9 milhões, teriam sido efetivamente pagos.
Parte dos recursos pode ter sido destinada à estadia de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Segundo a PF, mensagens indicam que ele dava orientações sobre como o dinheiro poderia ser administrado no país. A gestão seria feita por meio do fundo Havengate, ligado ao advogado Paulo Calixto.
A avaliação policial é de que as mensagens e demais elementos reunidos justificam a abertura da investigação para esclarecer a origem, o trânsito, a destinação e os beneficiários finais dos valores.
Relações com servidores do Banco Central
Os autos também descrevem pagamentos de viagens e jantares internacionais para servidores do Banco Central que, conforme a investigação, teriam atuado em favor do Master. Vorcaro teria custeado parte da viagem do ex-chefe de Supervisão Bancária Belline Santana e da esposa dele a Paris.
A defesa de Belline não respondeu. Em outras ocasiões, negou que o ex-banqueiro tivesse influenciado a atuação dele.
A PF afirma ainda que Vorcaro classificava Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização do Banco Central, como “um anjo da vida” e pagou uma viagem dele com a família para a Disney, nos Estados Unidos. Em outro episódio, teria pedido que Paulo Sérgio tentasse impedir mudanças nas regras sobre investimentos de fundos de previdência que poderiam afetar o Master.
A defesa de Paulo Sérgio declarou que ele pagou integralmente as despesas da viagem. Também afirmou que a Polícia Federal interpretou de forma equivocada o trabalho de supervisão exercido por ele, tratando-o como um serviço informal de consultoria.
A investigação indica, por fim, que Vorcaro sabia que seria alvo da operação policial que levou à prisão dele na noite de 17 de novembro de 2025, quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta. Para os investigadores, mensagens, anotações e movimentações encontradas no celular mostram que informações sigilosas chegaram ao ex-banqueiro nas semanas anteriores à ação.



