O acidente vascular cerebral (AVC) costuma se manifestar de forma repentina, mas geralmente está relacionado a alterações vasculares que se desenvolvem silenciosamente ao longo dos anos. Em pessoas vulneráveis, porém, algumas situações agudas podem contribuir para o desencadeamento do quadro nas horas anteriores.
O neurocirurgião Victor Hugo Espíndola destaca que é necessário separar esses possíveis gatilhos da doença vascular de base. Na avaliação do especialista, o AVC, na maioria dos casos, não resulta de um único acontecimento ocorrido pouco antes, mas de uma condição que já vinha evoluindo.
Entre os fatores associados ao risco estão hipertensão arterial, aterosclerose, diabetes, tabagismo, colesterol elevado e arritmias cardíacas, como a fibrilação atrial. Sobre esse cenário, podem atuar eventos como picos acentuados de pressão, arritmias súbitas, infecções agudas, uso de substâncias estimulantes — como cocaína e anfetaminas — e desidratação severa ou alterações hemodinâmicas em pessoas vulneráveis.
No AVC hemorrágico, uma elevação repentina e intensa da pressão arterial pode ter grande impacto. No tipo isquêmico, o problema costuma ocorrer quando uma artéria é bloqueada pela formação ou pelo deslocamento de um coágulo.
Sinais que podem anteceder o AVC
Algumas pessoas apresentam episódios neurológicos transitórios antes de um AVC definitivo. O principal exemplo é o Ataque Isquêmico Transitório (AIT), cujos sintomas se parecem com os de um AVC, mas desaparecem após alguns minutos, quando a interrupção da circulação cerebral é passageira.
Os sinais que exigem atenção médica imediata incluem:
- fraqueza ou dormência repentina em um lado do corpo;
- assimetria na face, conhecida como “boca torta”;
- dificuldade repentina para falar ou compreender a fala;
- perda ou alteração súbita da visão;
- perda de equilíbrio, tontura ou vertigem abrupta.
O desaparecimento das manifestações não indica que o risco terminou. Dados da American Heart Association apontam que a possibilidade de um AVC definitivo nos 90 dias posteriores a um AIT pode chegar a cerca de 18%. Uma parcela expressiva desses episódios ocorre nas primeiras 48 horas.
“Mesmo que os sintomas desapareçam completamente depois de alguns minutos, a orientação permanece a mesma: procurar imediatamente um serviço de emergência”, afirma Espíndola. A investigação pode identificar condições ocultas, como estreitamento das artérias carótidas ou alterações no coração.
Como diferenciar AIT e AVC isquêmico
A distinção é feita no pronto-socorro por meio de exames de imagem. Se os sintomas desaparecerem e não houver evidência de infarto cerebral nos exames apropriados, o quadro pode ser classificado como AIT. Caso a ressonância mostre uma área de infarto, trata-se de um AVC isquêmico, mesmo que a pessoa já esteja sem sintomas.
A duração dos sinais, portanto, não é o único critério usado na definição médica. Por isso, um déficit neurológico que desapareceu deve receber a mesma atenção que aquele que permanece.
Desidratação e exercício
A desidratação pode reduzir o volume de sangue circulante e aumentar a viscosidade sanguínea, especialmente entre idosos ou pessoas com obstruções vasculares anteriores. Isoladamente, porém, não é considerada uma causa habitual de AVC.
O exercício físico regular é apontado como uma das principais formas de proteção cardiovascular e prevenção do AVC. Atividades muito intensas podem provocar elevações temporárias da pressão e exigem cautela em situações específicas, mas a prática regular é benéfica.
O que fazer diante dos sinais
Ao notar qualquer sintoma suspeito, a orientação é buscar atendimento imediatamente em um pronto-socorro. Não se deve esperar a manifestação passar, dormir ou deixar a consulta para outro momento.
A mnemônica BE-FAST ajuda no reconhecimento: B, de equilíbrio; E, de olhos, para alterações visuais; F, de rosto, quando há queda ou assimetria; A, de braços, diante de fraqueza ao levantá-los; S, de fala, quando há dificuldade para articular palavras; e T, de tempo, para chamar o serviço de emergência, pelo SAMU 192.
No AVC isquêmico, o atendimento rápido pode permitir o uso de medicamentos trombolíticos e da trombectomia mecânica para restabelecer o fluxo sanguíneo cerebral e reduzir o risco de sequelas graves.



