Medicamentos conhecidos como Wegovy, Mounjaro e Ozempic têm sido usados no tratamento da obesidade, mas o acesso facilitado e a divulgação nas redes sociais também estimularam o consumo sem indicação médica. Especialistas alertam que a perda rápida de peso não significa necessariamente melhora da saúde e pode esconder desnutrição e outros problemas físicos e mentais.
As medicações são agonistas do receptor de GLP-1 e podem ser utilizadas como apoio a mudanças no estilo de vida e na preparação para cirurgias de redução de estômago. O problema ocorre quando são usadas por pessoas metabolicamente saudáveis apenas para atingir um peso menor, sem avaliação e acompanhamento profissionais.
Influência das redes sociais
Termos como “rosto de Ozempic” e “cabeça de Mounjaro” passaram a circular na internet para descrever feições envelhecidas ou aparências desproporcionais. Para Higor Caldato, psiquiatra especialista em psicoterapias, transtornos alimentares e obesidade, o uso do remédio pode tornar menos visíveis os sinais de desnutrição.
O especialista afirma que influenciadoras e conteúdos publicados no TikTok e no Instagram apresentam a perda de peso como um estilo de vida desejável. Em pessoas predispostas, esse tipo de estímulo pode contribuir para o desenvolvimento de transtornos alimentares.
Em 2024, a socialite Sharon Osbourne relatou que o uso de Ozempic fez seu peso sair de controle. Ela disse que não conseguia ganhar peso e afirmou que os médicos não deveriam indicar o medicamento para qualquer pessoa.
A Associação Brasileira de Psiquiatria informa que cerca de 15 milhões de brasileiros convivem com transtornos alimentares, como anorexia e bulimia. Conteúdos que associam comer menos à beleza ou à riqueza também são apontados como fatores de incentivo, principalmente entre mulheres jovens e adolescentes.
Consequências da magreza excessiva
Érika Pimenta, ginecologista integrativa do Instituto Nutrindo Ideais e atuante em endocrinologia metabólica, explica que pessoas naturalmente magras podem ser saudáveis. O risco aparece quando medicamentos e outras estratégias levam indivíduos a pesos ou percentuais de gordura inadequados para o próprio organismo.
Entre as possíveis complicações estão baixa massa muscular, inadequação proteica, deficiências nutricionais, alterações hormonais e comprometimento da saúde óssea. A baixa disponibilidade energética associada à supressão hormonal pode reduzir a formação dos ossos e elevar o risco de osteopenia, osteoporose e fraturas.
Em casos graves de desnutrição, também podem ocorrer bradicardia, hipotensão e alterações da função cardíaca. Perda muscular importante, alterações de humor, dificuldade de concentração, problemas no sono e maior risco de transtornos alimentares estão entre os demais efeitos citados pela médica.
Sinais de alerta
Entre os sinais de que o emagrecimento pode estar ocorrendo de forma inadequada estão regras rígidas com a comida, exclusão de grupos alimentares, exercício mesmo diante de doença ou lesão, tentativa de esconder o corpo, recusa a refeições em grupo e mentiras sobre o que foi consumido.
O emagrecimento bem conduzido deve buscar a redução de gordura com preservação da massa muscular. Para isso, Érika Pimenta destaca a importância de alimentação adequada, proteínas e micronutrientes em quantidade suficiente, treinamento de força, atividade física, sono adequado e avaliação do contexto metabólico e hormonal.
Os medicamentos podem integrar esse processo, mas não substituem a estratégia nem a indicação médica. A composição corporal, a idade, as condições hormonais e as necessidades variam de uma pessoa para outra. A saúde, portanto, não pode ser definida apenas pelo número indicado na balança.



