A venda de peptídeos pela internet tem atraído praticantes de atividades físicas, mas também está associada a reações alérgicas graves e a produtos cuja composição não é garantida. A FDA enviou, em 24 de agosto, notificações de advertência a vendedores como Peptide Partners LLC, Peak Performance Peptides e NuScience Peptides LLC por violações relacionadas à distribuição de peptídeos ilícitos, entre eles a tesamorelina.
As cartas afirmam que medicamentos injetáveis podem causar danos graves. Nenhuma das empresas respondeu aos pedidos de comentário. Estados norte-americanos como Ohio também começaram a endurecer as regras, enquanto o comércio online de peptídeos pode movimentar até US$ 4 bilhões (mais de R$ 20 bilhões).
Produtos vendidos como pesquisa
Os chamados secretagogos incluem a sermorelina, a tesamorelina e a ipamorelina. Essas substâncias estimulam a produção do hormônio do crescimento humano e são promovidas por influenciadores como opções para ganhar massa muscular, queimar gordura e acelerar a recuperação de lesões. A FDA, porém, não aprovou esses produtos para perda de peso ou recuperação muscular, e há poucos dados científicos sobre segurança e eficácia.
A sermorelina foi aprovada pela FDA em 1997 para tratar crianças com atraso no desenvolvimento físico. Comercializado como Geref, o medicamento deixou de ser fabricado pela EMD Serono em 2008, por razões comerciais. Farmácias de manipulação podem fabricar sermorelina legalmente, mas a tesamorelina não é autorizada para manipulação.
Jack Ryan, responsável pelo site PeptidePrices, afirma monitorar quase 1.000 lojas virtuais. Até 20 de setembro, 526 vendiam sermorelina e 714 comercializavam tesamorelina. Os produtos são anunciados para “fins de pesquisa”, embora os insumos sejam de grau de pesquisa e não estejam liberados para uso humano.
Sem análise laboratorial, não é possível determinar se as reações decorrem dos próprios medicamentos, de ingredientes desconhecidos ou de contaminantes. A incerteza aumenta quando usuários fazem combinações de diferentes compostos, prática conhecida como stacking.
Três relatos de reação grave
Sarah Keese, engenheira de 35 anos que mora em Anchorage, no Alasca, aplicou sermorelina no abdômen em 3 de julho de 2025. Depois de ficar tonta e corada, ela desmaiou. No hospital de Sheridan, em Montana, recebeu epinefrina após sofrer uma reação alérgica grave. Sua frequência cardíaca caiu para 20 batimentos por minuto, a pressão arterial despencou e ela parou de respirar por instantes.
Keese foi transferida de helicóptero UTI para um hospital maior. A conta médica chegou a US$ 80 mil (R$ 415 mil), e ela passou a consultar um cardiologista por causa de uma arritmia associada ao choque anafilático. Antes do episódio, havia tido irritação e coceira após duas aplicações no fim de junho de 2025. Na terceira, entrou em choque anafilático. Ainda precisou pagar cerca de US$ 4 mil (R$ 20,7 mil) em despesas médicas.
A bióloga molecular Kristi Sawicki, de 60 anos, moradora de Columbia, em Maryland, também relatou irritação depois de usar sermorelina encomendada em março de 2025 pela plataforma de telessaúde Joi + Blokes. Após cerca de dois meses, teve vermelhidão, coceira intensa e dor. Os sintomas diminuíram depois que ela tomou anti-histamínicos e Advil.
David Jeffers, chef de cozinha de 42 anos, usou tesamorelina comprada por US$ 80 (R$ 415,8). Depois de aplicar o produto na coxa, em sua casa em Santa Barbara, na Califórnia, desmaiou e bateu a cabeça. Ele foi levado ao Santa Ynez Valley Cottage Hospital, diagnosticado com reação alérgica grave e recebeu tratamento. A despesa médica chegou a US$ 6 mil (R$ 31 mil).
Alertas médicos
O médico Thomas Kremen, especialista em medicina esportiva na UCLA Health, publicou uma revisão sobre seis peptídeos populares, incluindo a ipamorelina. Ele encontrou problemas de segurança potencialmente preocupantes e poucas evidências de eficácia. Para Kremen, a divulgação nas redes sociais pode tornar os peptídeos “muito mais marketing do que ciência”.
Tenille Davis, diretora de engajamento institucional da Alliance for Pharmacy Compounding, afirma que substâncias capazes de elevar o hormônio do crescimento humano podem aumentar riscos relacionados à proliferação celular. Profissionais que prescrevem sermorelina costumam monitorar o IGF-1, hormônio associado ao aumento do risco de câncer.
No TikTok, Instagram e Facebook, usuários trocam informações usando siglas e códigos para contornar bloqueios de conteúdo. A tesamorelina é chamada de “tesa”, enquanto a retatrutida é identificada como “reta”. Os relatos nas redes sociais costumam atribuir problemas a impurezas, contaminação ou erros de aplicação, mas a possibilidade de reações provocadas pelos próprios secretagogos é menos discutida.
Keese ainda presenciou uma reação semelhante com o namorado, Ryan Goede. Uma semana depois do atendimento dela, ele aplicou sermorelina, apresentou sintomas alérgicos e precisou seguir para o hospital após tomar Benadryl.



